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Por Chuvinha Hartmann. Publicado em 28/06/2013

O HINO E O MOMENTO

Coluna semanal do coronel do Exército na reserva José Deomar Hartmann

1. Já escrevi em outra ocasião que todas as críticas são bem-vindas, pois só elas podem me corrigir. Um ilustre advogado - um tanto irônico e pouco amistoso - me telefonou para deixar de bancar o intelectual, uma vez que o título do meu último artigo (Quibusdam tandem, Dilma, abuteris patientiam nostram?) não estava correto. Ele já usou várias vezes a citação e que o correto seria “abutere patientia mostra”. Cícero, autor da citação no Senado Romano, de acordo com o livro “De Caesare” (página 134), provavelmente editado pela Editora Agir (as folhas iniciais já haviam sido consumidas pelas traças quando o adquiri), citou a frase tal qual a escrevi. Também o livro Ars Latina, volume IV- Gramática (Editora Vozes Limitada, Petrópolis, RJ – 1963 – páginas 174 a 187) aborda o uso do caso acusativo, por ser o latim um idioma declinável. A construção de Cícero é um raro caso de dupla regência do acusativo, tanto pelo emprego do advérbio de tempo (quibusdam – até quando?) quanto pelo verbo (abutere – abusar de). O causídico usou o verbo no infinitivo e patientia nostra no caso nominativo. Cícero e eu usamos o verbo no futuro e o restante da expressão no acusativo. Como o erudito profissional do Direito não me fez a correção publicamente, também o poupo do constrangimento de identificá-lo aqui. Certo ou errado, ele pode continuar a usar suas expressões latinas em seu ofício sem qualquer temor, que em nada vai atrapalhar sua aparente exitosa carreira. Mesmo porque, durante seus bostejos doutrinários, por ocasião do julgamento do mensalão, ilustres ministros do STF castigaram muito mais o latim do que o advogado em questão. Enche-me, no entanto, de orgulho que suas correções e críticas tenham ficado restritas ao título: é sinal de que concorda com o conteúdo.

2. Falando em conteúdo, os fatos recentes demonstram que a juventude, principalmente ela, e com maioria do segmento universitário, acordou finalmente para o que a espera depois de formada e para a sua entrada no mercado de trabalho. É a sua geração e as que lhe sucederão que vão pagar o pato de tudo isso. A juventude não quis mais deixar o Brasil deitado em berço esplêndido, como reza nosso hino. O som também não é mais de um mar profundo, mas das ruas. Mostraram que os filhos da pátria não estão fugindo da luta. As recentes manifestações estão se alastrando pelo país inteiro. Uma infinidade de debates que assisti revelam que nenhum dos cientistas políticos mais renomados do país se arriscou a diagnosticar a maior motivação nem a projetar em que isso tudo vai dar. Apenas palpites, opiniões e algumas constatações. Pelos clamores das massas que aderiram aos jovens, sobrou para o Judiciário, para o Legislativo e principalmente para o Executivo. Isto posto, também me atrevo a opinar, fazer constatações e apresentar sugestões.

3. Opiniões. a) Analisando dados disponíveis, os gritos contra corrupção são indicadores de que ultrapassamos de longe os limites toleráveis. Os mecanismos internacionais que avaliam os índices de corrupção dos países nas quatro últimas décadas informam que em 1970 a corrupção no Brasil consumiu em torno de 0,3% do PIB. Já em 1990, a corrupção se aproximou de 1% do PIB. Em 2010, ultrapassou os 2% e, se não houver correção de rumos (o que as massas estão exigindo nas ruas), antes de 2020 chegaremos a vergonhosos 3%. Como o PIB cresceu muito nesses 40 anos, a roubalheira é astronômica. Quase todos os países mais corruptos que o Brasil vivem sob regimes ditatoriais – a maioria de esquerda. b) O Congresso Nacional talvez seja o maior culpado. Não é concebível que um poder só funcione de fato três dias por semana, e deixe acumular a apreciação de mais de 3 mil vetos presidenciais, se lixando literalmente para as suas atribuições constitucionais e regimentais e não promova de vez a reforma política. Achava-se que a renovação no Congresso resolveria em parte a questão, mas os detentores de primeiro mandato deixaram contaminar-se pelas velhas raposas. Esse negócio de que precisam estar nas bases nas segundas e sextas-feiras, em tempos de internet e outros avanços midiáticos, é pura balela para encaminhar suas campanhas para as reeleições, custeadas inescrupulosamente com o sofrido dinheiro público (diárias, passagens, impressos etc). Até aqueles que se diziam contrários “aos políticos profissionais”, desfilam sua incoerência hipócrita com invulgar desenvoltura. c) No Judiciário, são nítidos os indícios de que os novos ministros do STF vão desautorizar seus antecessores, descondenando o que já foi condenado.

4) Constatações. a) Com a ausência dos sindicatos e centrais sindicais (CUT) na mobilização das massas para os protestos contra o mais imoral governo já havido neste país, constata-se o seu pelegismo, atrelados que estão ao governo e sua estrutura partidária, deixando a deriva as classes que deveriam representar. É impossível que seus representados não estejam indignados com isso que aqui está. b) Os coitados dos profissionais de segurança estão entre a cruz e a espada. Não sabem se devem agir ou não. Caso não reprimam, colocam suas vidas em risco. Se forem agir, estarão sujeitos a enfrentar uma Comissão da Verdade, após os vândalos e bandidos infiltrados nos movimentos receberem polpudas indenizações.

5) Sugestões. – A omissão das autoridades contrasta com a gravidade do momento. Talvez falte identificar qual ministério devesse articular as ações governamentais. Por isso sugiro que se crie mais uma meia dúzia de ministérios (se for criado só mais um, a presidente corre o risco de ser comparada a Ali Babá – que não merece tal comparação). Já que falei em meia dúzia e considerando o teor dos cartazes presentes nas manifestações, sugiro que se criem: a) Ministério de Combate a Corrupção – Poderia ser ocupado pelo mais novo aliado, Paulo Maluff, ou pelo seu mentor, Lula. Ambos teriam notários qualificações para a Pasta. b) Ministério da Juventude (Caras Pintadas) – O mais indicado para ocupá-lo seria o aliado Fernando Collor de Melo. Pela sua experiência pessoal, ele poderia impedir que Dilma tivesse o mesmo destino que ele, com a crescente inquietação dos jovens. c) Ministério da Lealdade – A ser ocupado por Berenice Guerra, a amiga predileta. Enquanto alguns aloprados lhe passam a perna, a presidente já teve sobejas provas da lealdade de Berenice. d) Ministério do Patriotismo – Patriotismo também é amor. Rose Noronha, que já deu grandes provas de amor cantadas em verso e prosa, ocupando o cargo talvez não falasse o que sabe, despeitada que anda com aquele que nunca sabia de nada. e) Ministério do Perdão - A ser ocupado por Delúbio Soares. Teria como papel principal selecionar os países que tivessem suas dívidas com o Brasil perdoadas, negociando os percentuais que retornariam para financiar campanhas políticas. Também poderia negociar o perdão aos vândalos e bandidos das manifestações, em troca do desengajamento das manifestações. f) Ministério das Tradições Regionais – Nome ideal para assumi-lo é o de José Dirceu. Aqui, ele encarregaria a Democracia Socialista para ensinar a dança da chula aos manifestantes. No Norte e Nordeste, aproveitando a época, ele ensinaria aos manifestantes a dança da quadrilha. Caso quisesse criar mais ministérios, José Sarney, Renan Cailheiros, Genuíno, João Paulo Cunha e outros qualificados quadros estariam compondo uma reserva de luxo.

Para encerrar o artigo, chamaram a atenção os inúmeros cartazes que criticam a omissão da Fifa, ao não incluir na Lei da Copa a construção de hospitais, escolas e presídios padrão Fifa, ficando restrita a estádios.

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