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Por Chuvinha Hartmann. Publicado em 05/07/2013

CENÁRIOS DESFAVORÁVEIS

Coluna semanal do coronel do Exército na reserva José Deomar Hartmann

Em sua última coluna, com muita prudência o Donato propôs uma trégua nas manifestações de rua, com argumentos sensatos e oportunos para o momento. Concordo com tudo o que ele argumenta. Lamentavelmente os indicadores disponíveis não sinalizam na mesma direção. Em seu livro “A Arte da Previsão” (Editora Record), Peter Schwartz dá um certo caráter científico e probabilístico para a previsão de cenários, pela interpretação correta dos sinais e circunstâncias que nos cercam e dados disponibilizados no momento. Essa interpretação diminui a margem de erro mais ou menos nos moldes das pesquisas de opinião, também processadas com rigor científico. No caso das manifestações de rua temos que levantar todos os cenários julgados possíveis, atribuindo um valor numérico a cada dado disponível, estabelecendo uma hierarquia da maior à menor probabilidade de ocorrência de cada um deles. A proposta do Donato, na minha avaliação é sem dúvida o mais desejável, o mais prudente e o mais conveniente dos cenários, mas com uma das menores probabilidades de ocorrência.

O primeiro óbice reside na incapacidade do governo de atender as reinvindicações dos manifestantes, dispersas sobre todas as atividades da ação política, setorizadas, exigindo respostas de todas as áreas do governo, que não estão se entendendo entre si, não sabendo o que está acontecendo. As exigências dos manifestantes são todas justas e necessárias, frutos da mentira sistemática que lhes foi empurrada goela abaixo durante dez anos. O governo vai começar as negociações com quem? Quem são os líderes dos diversos segmentos? No terreno da decência e da credibilidade, fracassaram e faliram as instituições. A população que se manifestou, na opinião da imprensa nacional e internacional, atingiu em cheio o peleguismo sindical, retirando a autoridade moral dos sindicatos e centrais sindicais para representar os manifestantes em negociações. Quem vai atender as reivindicações de médicos e professores, com seus aviltantes e ridículos salários? A ferramenta principal para execução das políticas públicas é o profissional (pessoa humana), que faz as coisas acontecerem. Além das condições físicas, da contínua adequação à evolução tecnológica e uma moderna estrutura logística, sem uma remuneração digna aos profissionais, não se tem como atingir como resultado metas mínimas exigidas pelas ruas. Os manifestantes já não aceitam promessas, pois estão acostumados a viver com a mentira.

Outro obstáculo a ser superado é exatamente a cultura da mentira e das falsas promessas. Em outras palavras, é a cara de pau dos governantes. Quando ministro da Educação, o agora governador impôs a estados e municípios o pagamento de um piso salarial ao magistério. Uma vez eleito governador, o pai da criança entra na Justiça para não cumprir o que ele próprio determinara. Um senador (digno, que já recebeu meu voto e talvez volte a recebê-lo) elabora por anos um projeto de lei para viabilizar um resgate da dignidade dos aposentados. Após apresentado o projeto, o mesmo senador é submetido ao crivo do partido e constrangido a votar contra seu próprio projeto. Os manifestantes não acreditam mais nesse mentiroso faz-de-conta.

Mais de um milhão de assinaturas, antes da eclosão das manifestações, haviam sido recolhidas, protestando contra a eleição de Renan Calheiros para a presidência do Senado. O motivo das assinaturas é que em 2007 ele renunciara ao seu mandato para evitar a cassação, por corrupção já devidamente reconhecida nas instâncias judiciais. As assinaturas foram solenemente ignoradas. Articulada por Lula (que de nada deve estar sabendo), Renan foi escolhido presidente do Senado com esmagadora maioria de votos governistas.

Com a revolta das ruas em pleno andamento, enquanto o presidente do Senado requisitou um avião da FAB para levá-lo, ele e seus meliantes mais próximos, a um casamento da filha de outro político, de Brasília a Porto Seguro (Bahia), o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, requisitou outro jato da FAB para levá-lo junto com sua namorada (?) e outros familiares ao Rio de Janeiro, a partir de Natal (RN), para assistir o jogo final da Copa das Confederações (Brasil x Espanha). O espantoso é que ambos alegaram que as requisições foram absolutamente legais, mentindo descaradamente, a despeito das manifestações contra a corrupção. E digo categoricamente que mentiram, porque a requisição de aviões só pode ser feita em três hipóteses pelos espertos presidentes das duas casas do Congresso Nacional: 1) para deslocamentos em atos de serviço; 2) para evacuação aero-médica de emergência; 3) para transporte do requisitante de Brasília até onde tenha residência fixa. Para azar do presidente da Câmara, um assessor parlamentar seu ainda foi preso com uma bolsa contendo cem mil reais em dinheiro vivo, quantia que coloca a origem e o destino do valor sob suspeita. A mim, particularmente, causa espécie a falta de inteligência dos ilustres bandidos, pois voos exclusivos para sua diversão em fins de semana eles poderiam simplesmente pedir ao Lula, a quem as empreiteiras envolvidas nas obras do PAC devem algumas voltas ao mundo.

Os adolescentes que representaram o MPL (Movimento do Passe Livre), em reunião com a presidente Dilma, confessaram-se surpresos com o despreparo e falta de conhecimento da presidente para apresentar alguma proposta. Num telejornal sensacionalista flagrei o seguinte diálogo: -- “De novo você? Já é a quarta vez em menos de duas semanas!”. – “Pois é, tio. Só tenho mais dois anos!!!”. O diálogo aconteceu por ocasião da quarta prisão de um adolescente de 16 anos em menos de duas semanas, por delitos de toda ordem.

Permito-me ainda transcrever trecho de uma reportagem da Folha de São Paulo: - “Em nove oportunidades, uma cliente pagou 400 reais ao profissional que lhe fez o penteado e a maquiagem. Na décima, pelo mesmo serviço, foram lhe propostos 3.125 reais. A cliente deve concordar com a proposta? Sim ou não?”. Roberto Pompéu de Toledo na edição de nº 2.328 de 03/07/2013, escreveu: - “A história é real. A cliente em questão é a presidente Dilma Rousseff, e os preços foram apurados pela reportagem da Folha de São Paulo. Em nove ocasiões, desde o início do mandato de Dilma, a presidência pagou 400 reais pela preparação de seu visual, antes das aparições na televisão. Na décima, em dezembro do ano passado, foi lhe apresentada uma conta de 3.125 reais. O governo disse sim ou não? Adivinhe o leitor. Adivinhou: disse sim. E continuou dizendo sim nas duas vezes seguintes, a última das quais na semana passada, quando pagou os mesmos 3.125 reais. Ora, direis, é uma mera conta do cabeleireiro. Se a conta do cabeleireiro, tão simples de calcular, é administrada desse jeito, imagine-se a da transposição do São Francisco.”.

Com tais circunstâncias e fatos ocorrendo durante a após as manifestações, custa-me crer, Donato, que as pífias medidas publicitárias do governo consigam aplacar a indignação dos manifestantes!

  

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