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Por Chuvinha Hartmann. Publicado em 29/09/2013

AÇÃO E CONTEMPLAÇÃO

Coluna semanal do coronel do Exército na reserva José Deomar "Chuvinha" Hartmann

1. Pela leitura das revistas semanais tomei conhecimento de que, após já ter sido escolhido para ocupar uma das vagas abertas no STF, o escritório de advocacia do agora ministro Barroso foi contratado (sem licitação, claro) pela Eletronorte (governo) por R$ 2 milhões para prestação de serviços. Ao ser questionado pela imprensa sobre o fato, o ministro não o desmentiu, mas justificou que já havia se desligado do escritório por ocasião da contratação dos serviços. A moralidade romana já pregava que não bastava para a mulher de César ser honesta: ela também devia parecer honesta. Cá para nós, para quem enriqueceu com medidas protelatórias e artifícios jurídicos de moralidade duvidosa, tão presentes no meio jurídico, mesmo sabendo que tais atos falseavam a verdade (logo, a justiça) a justificativa do ministro Barroso é um desses eufemismos que, embora legais, estão eivados pela imoralidade. Pode até estar formalmente desligado, mas informalmente existem antecedentes de que continua tudo como antes no quartel de Abrantes. Veja que o ministro da Justiça à época do mensalão que por dever do ofício devia saber tudo sobre o que acontecia, agora apareceu como defensor de alguns mensaleiros, como advogado. Uma promiscuidade sem precedentes. Vendo seu escritório receber de mão beijada (sem licitação) um contrato de R$ 2 milhões e tendo sua nomeação para ministro do STF abonada pelo PT, moralmente ele deveria se declarar impedido de votar na aceitação dos embargos infringentes e não desafiar o bom senso que o ministro Dias Toffoli já havia desafiado anteriormente. Resumo da ópera: provavelmente se repetiu a estratégia do petismo, e se até aqui o crime compensou com a compra de parlamentares e enriquecimento pessoal, por que também não comprar alguns juízes e enriquecê-los? É o que o caso me autoriza a supor.

2. Já que se perdeu por completo o pudor, as gerações que mais sofrerão as consequências desses comportamentos insensatos que se repetem diariamente, são as que sucedem a minha, que está saindo para a aposentadoria. Os mais jovens, pois que procurem informar-se e tomem as medidas de pressão para inibir a repetição ad infinitum desses comportamentos, cujas consequências serão imprevisíveis, mas sem dúvida muito crueis com seus futuros próximos. Eu, de minha parte, continuarei vigilante, mas dedicarei a maior parte do meu tempo à minha crescente vocação contemplativa.

3. As coisas estão tão malucas que faço eco aos clamores de um conhecido meu. Com rendimento líquido de 5 mil reais mensais (65 mil reais anuais), ele foi multado pela Receita Federal por suposta sonegação fiscal de um ano em quase 150 mil reais. Na fria letra da lei, me diz ele, a Receita Federal pode até estar cumprindo com os rigorosos e inflexíveis dispositivos que a orientam. A Justiça também pressupõe uma avaliação das circunstâncias. Despesas médicas próprias e de quem depende informalmente desse conhecido, situações constrangedoras que de fato existiam, tudo foi ignorado pela fúria arrecadadora do governo, o que está matando o meu reclamante, de passado irretocável. E este problema ele vem enfrentando justamente em época de tanta denúncia de roubalheira e falcatruas. É o que mais abate o seu moral, segundo ele. Garante que jamais sonegou um centavo sequer e se sente como um criminoso de alta periculosidade. Ele me pergunta por quais motivos não existe um dispositivo na Receita Federal que coloque em malha fina aqueles que possuem um patrimônio incompatível com os rendimentos declarados. De bom, afirma o comportamento exemplar e maneira civilizada com que foi tratado por auditores e funcionários da Receita Federal, todas as vezes que teve que contatá-los, pois sentiu muitos deles constrangidos em ter que adotar as medidas que adotaram contra meu conhecido. Ele conclui seus lamentos confessando a revolta que toma conta de si e de seus familiares, entre uma e outra internação hospitalar: os mensaleiros que comprovadamente roubaram 170 milhões de reais receberam multas cujo valor recebem em dobro, do mesmo governo, por fajutas consultorias sem licitação. E eu, que muito contribui, e nada roubei nem soneguei, fui escalado para ajudar a pagar essa conta, conclui ele.

4. O que de fato está ocorrendo é que estamos num mato sem cachorro. Estamos desnorteados com a propaganda oficial (que devia ser a mera publicidade de seus atos) e com os valores que com ela são logicamente superfaturados. O martírio do meu conhecido, agora já meu amigo pela caridade que lhe dedico e compaixão que me causou, é uma pecaminosa amostra da dificuldade de se exercitar a cidadania neste país. Ele deve morrer para que os ladrões que ocupam o poder possam continuar a roubar e a viver nababescamente. E se eu digo que estamos num mato sem cachorro estou falando exatamente do estado físico que a frase exprime. Estamos sem rumo, completamente desnorteados. Como no campo da ação não visualizei nenhuma solução, talvez na vida contemplativa eu me consiga localizar e determinar que rumo devo tomar. De minha parte, começarei a seguir a sábia orientação de São João Crisóstomo em sua homilia na Carta Paulina aos Efésios: - “Não basta deixar o Egito, é necessário dirigir-se para a Terra Prometida.” O Egito nós já deixamos. O problema é que estamos mais próximos de voltar ao Egito do que atingir a Terra Prometida.  

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