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Por Donato Heinen. Publicado em 05/12/2018 as 09:48:19

As mortes comemoradas em Ibiraiaras

Três assuntos diferentes, que se conectam


Na terça-feira pela manhã, no espaço de duas horas, 30 minutos antes do começo do Timeline e 30 minutos depois do fim, nessa pequena fatia de tempo, esbarrei em três assuntos diferentes uns dos outros, mas todos curiosamente conectados.

O primeiro foi uma entrevista do cineasta Jorge Furtado ao GaúchaZH, que li enquanto tomava café. O segundo foi um boletim que o repórter Eduardo Matos fez de Ibiraiaras durante o programa. O terceiro foi um e-mail que recebi dos Estados Unidos assim que o Timeline terminou.

A cultura, grande preocupação de Furtado (e, ressalto, minha também), torna-se uma abstração em países como o Brasil.

Furtado disse estar preocupado com o que ele definiu como a "natureza fascista" do próximo governo. "É muito provável que, nessa nova ordem que está chegando aí, a escola e a cultura e a arte sejam as primeiras vítimas", declarou.

Depois de me inteirar das inquietações de Furtado, fui para o Timeline e ouvi o relato do Eduardo Matos lá de Ibiraiaras, cidade que se tornou palco de assaltos a bancos na segunda-feira. No confronto com a polícia, foram mortos seis assaltantes. Um refém, funcionário do Banco do Brasil, também morreu, em circunstâncias ainda não esclarecidas. Matos entrevistou pessoas da comunidade. Todas cumprimentaram a polícia pela ação rápida e praticamente comemoraram as mortes dos assaltantes. Até um colega do refém que foi vitimado elogiou a polícia, embora tenha lamentado o destino do amigo.

Depois disso, recebi um e-mail da Greice Zaffari, amiga que mora em uma cidadezinha próxima, Manchester-by-the-Sea, que é mais ou menos do mesmo tamanho que Ibiraiaras. Ela me enviou o boletim de ocorrências policiais do município. A polícia local teve um mês cheio. Vou listar algumas das ações:

"Homem cantando e dançando na Rota 128".
"Homem expôs a genitália na Pipeline Road" (não duvido que seja o mesmo que estava cantando e dançando).
"Guaxinim numa varanda da Brook Street".
"Gaivota apanhou uma corda na Raymond Street".
"Atividade suspeita de homem vestido com roupas fora de estação" (seria o cantor da genitália exposta?).
"Cachorro latindo todo o dia na Raymond Street" (rua agitada, como se vê).
"Bebedeira na Pine Street".
"Coelho em um jardim da Pleasant Street".
"Galinha perdida na rua entre a Summer e a Ocean Street".
"Gente fumando maconha na rua na Summer Street" (mais agitada do que a Raymond). 

Não vou seguir em frente, você iria ficar com sono. O fato é que Ibiraiaras, cidade que ainda nesta semana assistiu a assaltos, sequestros, tiroteios e mortes, deveria ser como Manchester-by-the-Sea, onde alguém vê uma galinha na rua e liga para a polícia. O fato de não ser, o fato de os moradores de uma cidade minúscula sentirem medo da violência urbana, é que levou à eleição de um governo que, agora, é temido por Jorge Furtado.

Furtado faz filmes. Bons filmes. Pena que muitas pessoas não vão mais ao cinema, no Brasil, exatamente porque sentem o mesmo medo que os habitantes de Ibiraiaras. A cultura, grande preocupação de Furtado (e, ressalto, minha também), torna-se uma abstração em países como o Brasil, onde seis mortes são festejadas pela população de uma cidadezinha em que o grande assunto deveria ser um homem cantando e dançando sem motivo aparente, no meio da rua. 


David Coimbra/Gaúcha ZH


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