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Por Donato Heinen. Publicado em 26/02/2020 as 17:36:00

Entenda os impactos do avanço do coronavírus na economia global e brasileira

Epidemia afeta cadeias globais de suprimentos, abala bolsas, derruba preços do petróleo e eleva preocupações sobre desaceleração da economia chinesa e global.


Trabalhadores desinfetam vagões de metrô em Teerã, no Irã, na manhã de terça-feira (25), contra o novo coronavírus. — Foto: Sajjad Safari/IIPA via AP

O avanço da epidemia do novo coronavírus pelo mundo tem provocado abalos nos mercados globais e tem elevado as preocupações de investidores e governos sobre o impacto da propagação do vírus nas cadeias globais de suprimentos, nos lucros das empresas e no crescimento da economia global.

Embora o maior número de casos confirmados e os principais impactos ainda estejam concentrados na China, os temores de uma pandemia intensificaram-se com autoridades pelo mundo lutando para prevenir a disseminação do vírus, que já foi registrado em cerca de 30 países, gerando interrupção de produção e consumo na China, e também a paralisação de algumas atividades em países como Coréia do Sul, Irã e Itália.

Veja a seguir os principais impactos e possíveis consequências do avanço do coronavírus na economia global e brasileira:

Desaceleração da economia global e da China

Embora ainda seja difícil estimar a magnitude do choque na economia, já é praticamente consenso que a economia global e o PIB (Produto Interno Bruto) da China deverão crescer menos que o esperado em 2020.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que já alertava para um ritmo de recuperação mais lento em 2020, estima que a epidemia de coronavírus deverá reduzir o crescimento econômico mundial em até 0,1 ponto percentual. 

projeção do FMI é de uma taxa de crescimento de 5,6% para a China em 2020, 0,4 ponto a menos do que as estimativas de janeiro. Em 2019, o PIB chinês desacelerou para 6,1%, o menor crescimento em 29 anos.

O surto representa um grande abalo na economia chinesa, pois tem fechado fábricas e lojas, colocado regiões inteiras em quarentena e deixado muitos cidadãos trancados em suas casas por medo do contágio, reduzindo dessa forma o consumo e a atividade econômica. Vale lembrar que a China é a segunda maior economia do mundo, com uma participação no PIB global da ordem de 16%.

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Entenda o impacto do avanço do novo coronavírus

Entenda o impacto do avanço do novo coronavírus

Cadeias globalmente integradas

O impacto do coronavírus na produção manufatureira chinesa também traz consequências para os principais parceiros comerciais chineses e para as cadeias globais de suprimentos.

Mesmo em regiões que não estão em quarentena, eventuais suspeitas de contaminação têm levado ao fechamento total de algumas indústrias até que se descarte um novo caso.

As exportações chinesas de bens intermediários no segmento eletroeletrônico respondem por mais de 10% da produção global desses produtos.

Segundo um relatório da Trendforce, empresa chinesa de análise de cadeia de suprimento, a produção de smartphones no primeiro trimestre de 2020 pode cair 12% se comparada ao mesmo período em 2019.

Se confirmada a previsão, essa seria a pior produção para o primeiro trimestre em 5 anos. Outros tipos de dispositivos, como monitores, TVs e notebooks também devem ter redução de milhões de unidades na produção, de acordo com a consultoria.

O coronavírus afeta até mesmo a produção de mel da China, a maior produtora mundial de mel, uma vez que as restrições de viagens adotadas para conter o surto prendem apicultores em casa e deixarão suas abelhas sem alimento durante semanas.

Centro comercial vazio em Wuhan nesta quarta-feira (26), na província de Hubei, na China — Foto: ReutersCentro comercial vazio em Wuhan nesta quarta-feira (26), na província de Hubei, na China — Foto: Reuters

Centro comercial vazio em Wuhan nesta quarta-feira (26), na província de Hubei, na China — Foto: Reuters

Bolsas zeram ganhos no ano

O avanço da epidemia nos últimos dias derrubou as principais bolsas do mundo. Na Europa, os índices de referência recuaram para mínimas em quase quatro meses. Nos Estados Unidos, os índices Dow zeraram os ganhos no ano. Somente nesta segunda (24) e terça (25), as empresas listadas nas bolsas de Nova York perderam US$ 2,15 trilhões de valor de mercado, segundo a Economatica.

Entre as ações mais afetadas estão as de companhias aéreas e empresas do setor de turismo, tecnologia, eletrônicos e de automóveis.

No Brasil, o Ibovespa acumulou até o dia 21 de fevereiro queda de 1,70% no ano.

"Finalmente estamos acordando para o fato de que esse problema pode continuar por um período e ter um impacto significativo no crescimento econômico chinês e global e potencialmente nos Estados Unidos", disse Randy Frederick, vice-presidente de negociação e derivativos para Charles Schwab em Austin, Texas.

"Quando as pessoas reagem a isso porque não viajam, não vão a restaurantes ou fazem compras, isso terá um impacto imediato na economia. Depende de quanto tempo dura e quão amplo é o contágio", acrescentou.

Entre os investidores, crescem as apostas de mais medidas de estímulos por parte dos governo e de cortes nas taxas de juros na Europa e no Estados Unidos para sustentar a economia.

Empresas projetam lucros menores

Dezenas de multinacionais passaram a alertar seus acionistas que o surto afetará suas finanças, incluindo empresas como Apple, United Airlines, Mastercard, ToyotaDanone e Diageo.

Apple já anunciou que a crise global causada pelo vírus não permitirá que a empresa alcance as metas de faturamento traçadas para o primeiro trimestre e que o "o suprimento global de iPhones será temporariamente restrito".

No Brasil, a Petrobras também já adiantou que o resultado financeiro da companhia no primeiro trimestre deverá ser impactado, principalmente em razão da queda no preço internacional do petróleo. Atualmente, cerca de 65% do petróleo produzido pela Petrobras é vendido para a China. A empresa informou, no entanto, que até o momento a demanda da companhia não foi prejudicada, uma vez que todas as cargas previstas para o mercado chinês estão embarcando normalmente.

Impacto no PIB do Brasil

As preocupações em torno dos impactos do coronavírus na economia global também tem pesado nas revisões para baixo nas projeções para o crescimento da economia brasileira em 2020.

mercado brasileiro reduziu para 2,20% a previsão a alta do PIB em 2020, segundo a última pesquisa Focus do Banco Central, mas diversos bancos e consultorias já estimam um crescimento de, no máximo, 2%.

Revisões para baixo no PIB chinês geralmente afetam também o Brasil. Além de importante comprador de commodities brasileiras como minério de ferro e soja, o país asiático também tem papel relevante como fornecedor para a indústria local, especialmente a de produtos eletroeletrônicos. E já há relatos de de falta de peças para a montagem de produtos, em razão da interrupção da produção e redução dos estoques na China.

Por conta de fluxos elevados de capitais para mercados de menor risco, o dólar segue se valorizando frente a outras moedas, em especial moedas de países emergentes como o real. No dia 21 de fevereiro, o dólar atingiu pela primeira vez R$ 4,40.

Produção de celulares suspensa em fábricas do Brasil

A fábrica da LG em Taubaté (SP) e unidades da Samsung e da Motorola na região de Campinas tiveram produção suspensas, por falta de componentes eletrônicos que deveriam vir da China.

A China é a principal fonte de componentes do Brasil. O país é um dos principais vendedores de chips, circuitos integrados e outras partes e peças que vão se tornar celulares, máquinas de lavar, televisores e diversos outros eletrônicos em outros países.

De acordo com informações da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), metade das empresas já têm problemas no recebimento de materiais da China. 

Soja, minério e carne

Do lado da exportação, o principal impacto de curto prazo tem sido nos preços das principais commodities vendidas pelo Brasil. As cotações da soja, do petróleo e do minério de ferro têm recuado diante do temor de uma desaceleração da economia chinesa.

A soja representa cerca de 30% de tudo o que o Brasil exporta para a China, seguido de petróleo (24%) e minério de ferro (21%).

Como os contratos de compra e venda destes produtos costuma ser fechados com meses de antecedência, as vendas nos próximos meses para a China estariam asseguradas. A maior preocupação é de que o surto se estenda muito além deste primeiro trimestre ou uma desaceleração mais forte da economia chinesa.

Já o setor de carne avalia um possível aumento nos pedidos. De acordo com a agência Reuters, A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, avalia que a combinação de peste suína africana, coronavírus e gripe aviária, que tem afetado granjas em algumas regiões em quarentena, poderia impulsionar a demanda chinesa por carne brasileira. 


Preços do petróleo em queda; ouro em alta

Os preços do petróleo também têm sido abalados, recuando para mínimas que não eram registradas desde janeiro de 2019, em meio a expectativa de menor demanda global.

Na terça-feira (25), o barril do tipo Brent fechou em queda 2,4%, para US$ 54,95. Já o petróleo nos EUA caiu 3%, para US$ 49,90 por barril.

Evolução do preço do petróleo

Valor médio do barril de Brent, em US$

68,9968,9966,4566,4576,6576,6574,4474,4480,4780,4765,1765,1756,4656,4664,1364,1371,271,263,363,3646462,3362,3365,965,954,9554,95jan/18fev/18mar/18abr/18mai/18jun/18jul/18ago/18set/18out/18nov/18dez/18jan19fev/19mar/19abr/19mai/19jun/19jul/19ago/19set/19out/19nov/19dez/2019jan/202025fev/2020020406080100

Fonte: Tendências Consultoria e Reuters

O Goldman Sachs reduziu sua projeção para o crescimento da demanda por petróleo em 2020, para 600 mil barris por dia (bpd), de 1,2 milhão de bpd anteriormente. O banco também cortou a previsão de preços do petróleo Brent, de US$ 63 para US$ 60 o barril.

Embora a queda do preço do petróleo possa impactar negativamente nos resultados da Petrobras e na arrecadação do governo brasileiros com royalties, a baixa pode também resultar, em tese, em preços mais baratos da gasolina e diesel nas refinarias e nos postos.

A busca por ativos considerados mais seguros também tem feito saltar o preço do ouro, que atingiu no dia 24 a cotação de US$ 1.684,60 a onça (28,34 gramas), maior valor em 7 anos. 

G1


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