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Por Donato Heinen. Publicado em 17/10/2020 as 11:04:41

"Vamos verificar se é ingenuidade ou má intenção", diz comandante-geral da BM sobre vídeo de teste de armas

Imagens compartilhadas no WhatsApp viraram motivo de deboche nas redes sociais


A BM abriu um inquérito para investigar porque o teste não seguiu os protocolos e identificar quem gravou (Arquivo pessoal / Reprodução)

Compartilhado em grupos de WhatsApp, o vídeo que mostra um teste com uma pistola Glock, com qualidade reconhecida mundialmente, feito no Centro de Material Bélico da Brigada Militar, em Porto Alegre, virou motivo de deboche nas redes sociais e causou constrangimento à polícia militar gaúcha. A gravação mostra um procedimento fora do habitual: a arma é desmontada e com isso tem seus mecanismos de segurança desabilitados. Após disparos, a comissão conclui que o equipamento não seria seguro, o que o desclassificaria. 

A BM abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar porque o teste não seguiu os protocolos previstos no edital e identificar quem gravou e divulgou o vídeo. A principal suspeita é de que representantes de uma das empresas concorrentes tenham filmado o teste na tentativa de provar que a Glock é uma arma de ação simples (puxa o gatilho e atira), sendo que BM quer comprar uma pistola de ação dupla (passa por dois estágios para dar o tiro). A ação dupla permite, por exemplo, a possibilidade de o policial desistir do tiro, pois puxa o gatilho até a metade e não dispara.

O pregão para a compra de 4.501 pistolas .40 foi aberto no primeiro semestre de 2019, época em que a corporação era comandada pelo coronel Mario Ikeda. Uma ação judicial acabou estendendo o pregão por mais de um ano e meio. Três empresas participam da concorrência: Springfield, Glock e Beretta. A Springfield ofereceu o menor valor por unidade e, portanto, ficou em primeiro lugar mas acabou por ser inabilitada pois sua pistola tinha uma trava de segurança externa que não atendia a previsão do edital. 

A Springfield entrou com ação contestando e a Justiça entendeu que o Estado estava tomando as providências corretas ao seguir o que diz o edital. Assim, a austríaca Glock, por ser a segunda colocada com a oferta de R$ 1.887,00 por unidade, foi chamada. Antes de ser considerada vencedora, a Glock precisa passar por testes finais de segurança. Um desses testes, ocorreu na terça-feira (13) no Centro de Material Bélico da BM. Postada em grupos de redes sociais sem autorização da BM, a gravação levou poucas horas até chegar ao celular do comandante-geral da corporação, coronel Rodrigo Mohr Picon:

— É algo que nos espantou. Vamos verificar se é ingenuidade ou má intenção, é isso que temos de levantar. Isso acaba nos expondo como instituição e dá até uma ideia de corrupção. E isso não cabe na BM, ainda mais no processo licitatório que é totalmente aberto, envolvendo empresas historicamente conhecidas por sua qualidade. E aí vamos fazer um teste caseiro? Sem equipamentos? Nunca vi aquilo na vida, não tem sentido.

Em comunicado, a Glock afirmou: "a utilização apenas do ferrolho desprovido da trava de segurança do percussor, induziu e induzirá à erro qualquer resultado realizado, seja na Glock ou em qualquer outro fabricante, sem exceção." Também afirma que "o teste foi realizado com a arma desmontada, e, da forma como foi realizado, nenhuma das armas existentes no mercado com o sistema Striker fire passaria neste teste."

O coronel admite o constrangimento que o teste causou na tropa, inclusive em PMs da reserva. Segundo o oficial, a verificação não seguiu protocolos e não está dentro do padrão.

— O teste deve ser feito com a arma completa, não pode fazê-lo com um terço da arma ou metade da arma. Essas armas são todas de empresas conhecidas, testadas de forma muito específica, utilizadas de forma muito criteriosa. Imagina um engenheiro austríaco da Glock, altamente meticuloso, vendo aquele vídeo. Não tem cabimento. Tomamos providências urgentes e enérgicas — afirma o coronel.

Após a divulgação do vídeo, toda a comissão do Centro de Material Bélico foi afastada do cargo e substituída. Mohr promete rigor na investigação. Questionado por GZH sobre a hipótese do teste ter sido influenciado por lobby de empresas concorrentes, negou a possibilidade:

— Não quero acreditar que houve influência de lobby. A investigação vai levantar todo e qualquer fato dessa natureza. Damos abertura a todos os participantes, não vejo necessidade disso. O IPM vai verificar o motivo e os porquês desse tipo de teste não protocolar ter sido feito. Aquilo na realidade não testa nada, se tu retiras as travas de uma arma, obviamente se perde a segurança da trava. Se tiras a bateria do celular, o celular não funciona. Não há como fazer teste assim.

Segundo Mohr, a BM já possui pistolas Glock .40 no Batalhão de Choque desde 2017, recebidas por doação. A compra de pistola .40 pretende substituir armas antigas em quartéis de todo Estado.

Depois do constrangimento, a BM montou uma nova comissão com cinco oficiais especialistas em armamentos e tiro de diferentes unidades. Os novos testes estão marcados para os dias 26, 27 e 28 de outubro no Centro de Material Bélico da BM. Poderão acompanhar a demonstração, além da comissão, um representante de cada empresa participante do pregão. Serão dados cinco mil disparos com cada uma das três armas testadas.

— Tem toda uma sequência e um método que pode levar até três dias para concluir — explica o diretor interino do Departamento de Logística e Patrimônio da BM, tenente-coronel Cesar Adriano Patrício.

O fato de o edital prever a compra de 4.501 pistolas não significa que a BM irá adquirir toda essa quantidade de armamento. O pregão por registro de preço garante a BM que, no período de um ano, o Estado poderá comprar o armamento pelo valor vencedor da concorrência.

— Vamos comprando conforme a demanda, registro de preço é expectativa de aquisição, não é compra garantida. Vamos adquirir de acordo com aquilo que a BM e a Secretaria da Segurança Pública adotarem como procedimento daqui para a frente — informa o oficial.

Esta deve ser a última licitação da BM para compras de pistola .40. A partir de agora, o comando-geral dará início da troca de calibre, migrando para a pistola 9mm, uma arma mais leve, que oferece mais precisão e com valor de munição mais acessível. A BM deve lançar um novo edital da licitação internacional para compra de pistolas 9mm, ainda sem data definida.

— A licitação da pistola .40 está seguindo porque enquanto estiver ocorrendo a licitação da 9mm temos de ter a possibilidade de aquisição permanente de armas. Quando conseguirmos fechar a licitação de 9mm, abriremos somente para este tipo. Pistola 9mm tem precisão e recuo melhor, as polícias do mundo estão optando por esse calibre — explica o diretor. 


GZH


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