Padre Cícero pede socorro a Lampião e aos cangaceiros.

O sol causticante do sertão nordestino castigava a terra já rachada pela estiagem. Era julho de 1914 e Juazeiro do Norte se preparava para sua tradicional procissão em homenagem à Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade. Mas o velho padre Cícero Romão Batista, sentado em sua cadeira de balanço na varanda da casa paroquial, não conseguia esconder a preocupação que lhe sulcava o rosto envelhecido pelos seus 70 anos de vida.
Os últimos raios dourados da tarde iluminavam seu perfil austero enquanto ele contemplava a cidade que ajudara a erguer e transformar em centro de Romaria. Com um suspiro, fechou o pequeno livro de orações que segurava e ajeitou os óculos sobre o nariz. "Juazeiro não é mais a mesma, Beato José", murmurou para seu fiel assistente, que se mantinha de pé ao seu lado.
"O mal se instalou em nossas ruas como uma praga." O beato José Lourenço, homem de poucas palavras, mas lealdade inabalável, apenas assentiu. Não era preciso dizer mais. Ambos sabiam que nas últimas semanas uma onda de violência sem precedentes havia se abatido sobre a cidade. Assaltos, saques, pessoas desaparecidas.
O temor tomara conta dos moradores e, pior ainda, dos milhares de romeiros que começavam a chegar para a grande procissão que aconteceria em duas semanas. "Os fiéis estão com medo de vir para a Romaria este ano, Padim", complementou José Lourenço, usando o apelido carinhoso com que o povo se referia ao religioso.
"Dizem que há uma quadrilha de bandidos se escondendo nas redondezas, atacando as estradas e até mesmo invadindo as casas durante a noite." O padre Cícero suspirou novamente, erguendo-se com certa dificuldade. Seus olhos azuis, ainda vívidos, apesar da idade, percorreram o horizonte. Juazeiro era sua vida, sua missão, desde o milagre da hóstia que se transformara em sangue em 1889, evento que a Igreja Católica nunca reconhecera e que resultara em sua suspensão de ordem, ele dedicara cada dia de sua existência à proteção daquela comunidade. Não podia permitir que o medo afastasse os fiéis.
"E a guarda da cidade? O que diz o coronel Felício?", indagou o padre.
"O coronel tem poucos homens, Padim. Muitos adoeceram com a febre que chegou do litoral. Outros têm medo e os bandidos são muitos. Dizem que são mais de 30, todos armados até os dentes."
O silêncio pesou entre eles por alguns momentos, preenchido apenas pelo rangido suave da cadeira de balanço que ainda oscilava e pelo distante sino da igreja, anunciando a hora da Ave Maria. Então, como se uma ideia súbita o tivesse atingido, o padre Cícero ajeitou-se em sua batina preta e disse com voz firme: "Beato, preciso que você me traga papel e tinta. Vou escrever uma carta."
"Uma carta? Padim, para quem?"
O velho sacerdote olhou para o horizonte em direção ao agreste, para onde o sol já se punha em tons alaranjados. "Para Virgulino Ferreira da Silva, o homem que chamam de Lampião."
A notícia da ousada decisão do padre Cícero se espalhou rapidamente entre os membros mais próximos da paróquia, causando uma mistura de espanto e incredulidade. Pedir ajuda aos cangaceiros, aqueles mesmos homens que eram considerados foras da lei, que aterrorizavam fazendeiros e viajantes por todo o sertão nordestino.
"Padim perdeu o juízo!", exclamou Maria das Dores, uma das beatas mais antigas da cidade, quando ouviu os rumores: "Trazer Lampião para Juazeiro é como tentar apagar fogo com gasolina."
No entanto, o padre se mantinha irredutível. Conhecia Virgulino desde que este era um jovem cabra com um forte senso de justiça, antes de se tornar o temido Lampião. Sabia que, apesar de sua reputação, o cangaceiro mantinha um código de honra próprio, e, acima de tudo, uma devoção quase cega pelo padre Cícero, a quem considerava um santo vivo.
A carta foi escrita e entregue a um mensageiro de confiança que partiu no meio da noite em direção ao esconderijo do bando em algum lugar nas profundezas da Caatinga. Enquanto isso, em Juazeiro, as notícias dos crimes continuavam a se acumular. Na noite anterior, a mercearia de seu Manuel havia sido saqueada e o velho comerciante tinha sido gravemente ferido ao tentar defender seu pequeno estabelecimento.
"Três dias", disse o padre a José Lourenço, enquanto visitavam o comerciante no pequeno hospital da cidade. "Se não tivermos resposta em três dias, cancelaremos a procissão."
Mas a resposta veio antes. Na manhã do segundo dia, quando o sol mal começava a dourar os telhados das casas simples de Juazeiro, um menino esbaforido irrompeu na casa paroquial.
"Padim, Padim Ciço, tem uns homens chegando pela estrada do Crato. Dizem que é o bando de Lampião."
O padre Cícero ergueu-se de sua cadeira, onde recitava suas orações matinais, e dirigiu-se à janela. Lá longe, uma nuvem de poeira denunciava a aproximação de cavaleiros. Sem demonstrar surpresa ou temor, ele ajeitou o crucifixo que pendia do pescoço e ordenou: "Avise ao coronel Felício para não interferir e prepare água fresca para os visitantes. A viagem pelo sertão é longa e penosa."
A chegada do bando de Lampião a Juazeiro do Norte foi um espetáculo que ninguém que o presenciou jamais esqueceria. Eram 20 homens montados em cavalos robustos, vestidos com chapéus de couro adornados e cartucheiras cruzadas sobre o peito. No comando, Virgulino Ferreira, o Lampião, reconhecível pelo seu característico chapéu de cangaceiro e pelos muitos anéis que adornavam seus dedos ásperos. Ao seu lado, Maria Bonita, a primeira mulher a integrar um grupo de cangaceiros, exibindo um misto de beleza e dureza em seu semblante.
Os moradores fecharam portas e janelas à passagem do bando, espiando por frestas com uma mistura de medo e fascínio. As crianças foram recolhidas às pressas para dentro das casas e até mesmo os cachorros de rua pareciam ter sumido como se pressentissem o perigo. O bando seguiu diretamente para a casa paroquial, onde o padre Cícero os aguardava na varanda, sereno e imponente em sua batina preta.
Ao ver o religioso, Lampião desmontou de seu cavalo num movimento ágil e, para espanto de todos, ajoelhou-se diante do padre, beijando-lhe a mão enrugada. "Meu padrinho", disse o cangaceiro com um respeito que contrastava com sua temível reputação. "Recebemos sua carta e viemos o mais rápido que pudemos. O que aflige o senhor e o povo de Juazeiro?"
O padre Cícero ergueu Lampião pelos ombros e o olhou nos olhos. Por um instante, pareceu ver novamente aquele jovem Virgulino de anos atrás, antes de todos os crimes e da violência que agora marcavam sua história.... Mais no primeiro comentário


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