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Por Grande Santa Rosa Notícias. Publicado em 09/02/2026 as 19:46:29

Europa de valores sem poder: o erro estratégico

Se existe ainda caminho para uma Europa forte, ele passa inevitavelmente pelo entendimento entre Alemanha, França e Reino Unido


Durante muito tempo, a Doutrina Monroe foi tratada como uma curiosidade histórica, um conceito encerrado nos manuais do século XIX. Um erro cómodo. Porque, na prática, ela nunca desapareceu. Apenas deixou de ser dita em voz alta. No século XXI, a Doutrina Monroe continua viva, não como slogan, mas como instinto estratégico, definir esferas de influência, afastar rivais de zonas consideradas vitais e garantir que aliados não transformem-se em centros de poder autónomos. O que mudou não foi a lógica, foi a escala. Hoje, essa doutrina é global.

Num mundo em transição para a multipolaridade, os Estados Unidos reinterpretaram este princípio de forma pragmática. A América Latina continua a ser espaço de controlo direto. A Europa, por sua vez, tornou-se algo diferente, uma zona de dependência estratégica funcional. Não um inimigo, nem sequer um parceiro plenamente soberano, mas um prolongamento geopolítico do poder americano, sobretudo no domínio da segurança. A NATO, mais do que uma aliança defensiva, opera como o mecanismo que assegura essa dependência e, no fim, subordinando a capacidade militar europeia à liderança de Washington.

A guerra na Ucrânia tornou esta realidade impossível de ignorar. Um conflito de alta intensidade no próprio continente europeu foi, desde o início, gerido fora dele. As decisões centrais sobre dissuasão, armamento crítico, inteligência, limites da escalada de guerra, foram tomadas nos Estados Unidos. A Europa acompanhou, reagiu e justificou. Mas não liderou. Pagou custos económicos elevados e adotou uma narrativa moral forte, enquanto a definição estratégica permanecia externa.

O mesmo aconteceu no campo energético. A rutura com a Rússia foi apresentada como uma escolha moral e civilizacional. Mas, na prática, traduziu-se numa simples troca de dependências. O gás russo foi substituído por gás americano, mais caro, mais distante e politicamente condicionado. Não foi libertação, foi reconfiguração da vulnerabilidade. A autonomia estratégica foi muito falada e pouco praticada e a independência por via de centrais nucleares de nova geração pouco falamos no enquadramento da IA e da revolução económica deste século.

O problema europeu, no entanto, vai além da economia ou da defesa. É também mental. A Europa deixou de pensar estrategicamente. Substituiu o cálculo de poder por uma diplomacia normativa, baseada em valores universais e boas intenções, mas sem meios para os sustentar quando confrontados com a realidade. O resultado é um desfasamento perigoso entre discurso e capacidade. Um continente previsível, reativo e facilmente instrumentalizável. A demagogia estratégica a ideia de que intenções substituem poder, tornou-se regra, não exceção.

Se existe ainda um caminho para uma Europa forte, ele passa inevitavelmente pelo entendimento entre Alemanha, França e Reino Unido, independentemente do Brexit. São estes três países que concentram, em conjunto, os elementos essenciais do poder europeu em colunas estruturais como economia, forças armadas, dissuasão nuclear, diplomacia e influência global. O problema é que esse potencial tem sido desperdiçado.

A Alemanha continua presa a uma cultura política moldada pelo trauma histórico e pela crença, agora desmentida de que interdependência económica substitui poder estratégico. O seu modelo colapsou, e Berlim ainda não encontrou uma linguagem clara para o mundo que emergiu. A França vê com lucidez a necessidade de autonomia, mas não tem massa suficiente para liderar sozinha. O Reino Unido, fora da União Europeia, mantém capacidades decisivas, mas prefere o conforto do alinhamento automático com Washington ao incómodo da liderança europeia.

Uma Europa estratégica exigiria abandonar ilusões. Não para romper com os Estados Unidos, mas para reequilibrar a relação. Alianças assimétricas são normais, dependências estruturais são escolhas. E a Europa escolheu, durante demasiado tempo, delegar responsabilidades em troca de conforto.

Construir autonomia não significa duplicar a NATO ou encenar soberania. Significa investir seriamente em defesa, indústria, energia e tecnologia crítica. Significa aceitar que os interesses europeus nem sempre coincidem com os americanos e ter capacidade para agir quando divergem. Significa, acima de tudo, trocar o moralismo seletivo por pragmatismo estratégico.

A Doutrina Monroe do século XXI não ameaça a Europa com tanques ou ultimatos. Vence de outra forma pela acomodação, pela delegação e pela ideia confortável de que abdicar do poder é sinal de virtude. O verdadeiro risco para a Europa não é ser dominada. É continuar a demitir-se.

E, no sistema internacional, quem não decide acaba sempre por obedecer.

André Oliveira


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