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Por Grande Santa Rosa Notícias. Publicado em 25/10/2026 as 11:03:20

DNA

A veterinária Flávia Ferrari e outros especialistas perceberam que havia algo incomum naquela combinação de características. Surgiu então a suspeita de que Dogxim pudesse ser descendente de duas espécies diferentes.


Um animal encontrado ferido no interior do Rio Grande do Sul acabou se tornando uma descoberta inédita para a ciência. Ele parecia um cachorro, latia como um cachorro, mas tinha hábitos de um animal selvagem. Quando os pesquisadores analisaram seu DNA, descobriram algo surpreendente: era uma mistura de cão doméstico com graxaim-do-campo, um canídeo silvestre da América do Sul.

O animal, uma fêmea que ficou conhecida como Dogxim, foi encontrado em 2021, depois de ser atropelado na cidade de Vacaria. Ela foi encaminhada para receber cuidados veterinários e, durante a recuperação, começou a despertar a curiosidade dos profissionais responsáveis por seu tratamento.

Sua aparência não correspondia exatamente à de nenhum animal conhecido na região. Tinha pelagem escura, orelhas compridas e pontudas e porte semelhante ao de um cachorro de tamanho médio. Apesar de latir e aceitar alguma aproximação humana, apresentava comportamentos selvagens, como se movimentar entre arbustos e demonstrar preferência por caçar ratos em vez de comer ração.

A veterinária Flávia Ferrari e outros especialistas perceberam que havia algo incomum naquela combinação de características. Surgiu então a suspeita de que Dogxim pudesse ser descendente de duas espécies diferentes.

Para investigar, pesquisadores das universidades federais do Rio Grande do Sul e de Pelotas realizaram análises genéticas. O primeiro resultado revelou que o animal possuía 76 cromossomos, exatamente um número intermediário entre os 78 encontrados normalmente nos cães domésticos e os 74 presentes no graxaim-do-campo.

Mas os cientistas precisavam de mais evidências. Ao examinar o DNA mitocondrial, herdado da mãe, identificaram características genéticas do graxaim-do-campo, cujo nome científico é Lycalopex gymnocercus. Já a análise do DNA nuclear encontrou material genético das duas espécies.

Os resultados indicaram que Dogxim era uma híbrida de primeira geração, provavelmente filha de uma fêmea de graxaim-do-campo com um cachorro doméstico.

A descoberta chamou atenção porque os ancestrais dessas duas espécies seguiram caminhos evolutivos separados há aproximadamente 6,7 milhões de anos. Apesar dessa distância genética e de pertencerem a gêneros diferentes, seus representantes conseguiram produzir uma descendente que nasceu e sobreviveu.

Em 3 de agosto de 2023, o caso foi apresentado na revista científica Animals, tornando-se o primeiro cruzamento documentado entre um cão doméstico e um graxaim-do-campo.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a expansão das atividades humanas, as alterações no ambiente natural e a presença crescente de cães em áreas silvestres possam favorecer encontros reprodutivos incomuns como esse.

A descoberta, porém, também trouxe perguntas importantes. Ninguém sabia se Dogxim poderia ter filhotes, se outros animais semelhantes existiam na natureza ou quais consequências esses cruzamentos poderiam trazer para as populações selvagens.

Infelizmente, essas dúvidas se tornaram ainda mais difíceis de responder.

Depois de se recuperar do atropelamento, Dogxim havia sido transferida, em novembro de 2021, para o centro de conservação Mantenedouro São Braz. Quando os pesquisadores solicitaram novas fotografias em agosto de 2023, receberam a notícia de que ela havia morrido em março daquele ano.

A morte não havia sido comunicada aos cientistas, e as circunstâncias do ocorrido motivaram uma investigação das autoridades ambientais brasileiras. Naquele momento, a causa não estava esclarecida.

Assim, quando o estudo finalmente ganhou repercussão internacional, a única Dogxim conhecida e examinada cientificamente já não estava viva.

O que restou foram fotografias, amostras de DNA e os resultados de uma pesquisa que revelou uma possibilidade até então não documentada: um cachorro doméstico e um graxaim-do-campo, separados por milhões de anos de evolução, podiam gerar um descendente.

Dogxim viveu por pouco tempo sob os cuidados dos pesquisadores, mas seu caso abriu novas perguntas sobre reprodução, evolução e os efeitos da aproximação entre animais domésticos e silvestres 

EM FIM HISTORIAS


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