O que significa o silêncio de Trump em relação à vitória de Lula

Donald Trump costuma ser um mau perdedor. E isso se estende a quem ele considera seus aliados. A derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno para Lula não foi digerida até o momento pela Casa Branca. Isso explica o silêncio do governo Trump, que, até a manhã desta segunda-feira (26) não reconheceu o resultado.
Os Estados Unidos reconhecerem ou não o resultado das urnas não muda nada na prática. Mas é um ato simbólico — e envia recados políticos
O primeiro é uma quebra de tradição diplomática na relação entre os dois países, parceiros há mais de 200 anos.
Em seu primeiro mandato, Trump ligou para Jair Bolsonaro na mesma noite da vitória do brasileiro, em 2018. Mesmo em outros governos republicanos, como de George W. Bush, essa tradição se manteve. Bush filho ligou para Lula, em sua primeira eleição, em 2002.
Flávio perdeu. Trump perdeu. Essa é a leitura na Casa Branca neste momento. O republicano recebeu o brasileiro meses atrás, um dia antes de declarar Comando Vermelho e PCC organizações terroristas, como Flávio prometia fazer se fosse eleito.
Trump esperava, em caso de vitória de seu aliado, que o Brasil aderisse ao seu Escudo das Américas, a coalizão de nações em uma guerra contra o narcotráfico, que críticos veem como uma desculpa para interferência/intervenção em países sul-americanos.
Mais: desejava maior acesso a empresas brasileiras às terras raras — o país têm a segunda maior reserva do planeta. Mas, sobretudo, enxergava na vitória de Flávio um afastamento da China
O Brasil é encarado pelos falcões da Casa Branca como o último grande bastião da esquerda na América do Sul — além do país, apenas Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname mantêm governos dessa linha do espectro ideológico. Venezuela, como se sabe, já está se convertendo à fórceps, com a deposição de Maduro.
Seu projeto de reeditar a Doutrina Monroe, em que a "América para os americanos" significa blindar o continente de atores externos - além da China, a Rússia -, perdeu força. E isso não é bom também para seu desempenho nas mid terms, as eleições de meio de mandato, daqui alguns dias, quando Trump também deverá perder a maioria na Câmara e no Senado. E Trump não sabe perder.
Rodrigo Lopes


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