Nos passos de Getúlio

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é uma figura a ser estudada, você ame ou odeie as práticas dele. O petista chega a seu quarto mandato presidencial com uma façanha inaudita. Após uma maratona de 20 dias atraindo multidões às ruas, virou uma eleição que tinha perdido no primeiro turno.
Um feito espantoso, porque a direita fez no primeiro turno a maioria dos votos nos principais Estados da região Sudeste e em toda a região Sul, no Centro-Oeste e no Distrito Federal - onde mora o PIB urbano brasileiro, em resumo. Pois mesmo assim Lula conseguiu vencer, com 4,5 milhões de votos a mais que o adversário Flávio Bolsonaro (PL). Milhões que tinham deixado de votar em 5 de outubro agora foram às urnas e apoiaram o octogenário líder da esquerda brasileira - tudo indica que menos por gostar dele e mais por temor do que representam os adversários dele.
Mas Lula não parece ter garimpado apenas votos no contingente da abstenção. É bem provável que tenha convencido eleitores de direita a apoiá-lo. Vejam o caso de Porto Alegre: o prefeito Sebastião Melo (MDB) foi reeleito com larga margem de votos, tem apoio popular, fez campanha para Flávio Bolsonaro - e mesmo assim, o mais votado para a Presidência da República aqui na capital dos pagos foi o candidato do PT. O que indica que o atual presidente conseguiu pairar acima de ideologias. Será o governante brasileiro que mais ficou no poder, em tempos democráticos.
Nesse quesito, Lula lembra o mais habilidoso político gaúcho da história, Getúlio Vargas. O fazendeiro que garantiu direitos trabalhistas para milhões que até então viviam da mão para a boca, trabalhando para o dia seguinte. O revolucionário que conseguiu unir inimigos históricos, os chimangos e maragatos do Rio Grande do Sul, para tomar o poder no país. O ditador que governou por 15 anos, com alianças de ocasião e um torniquete sobre os adversários. O homem que, após se submeter à democracia, criou dois partidos, o PTB (com matriz operária) e o PSD (mais voltado aos empregados de classe média)
Lula ainda não teve a ideia de copiar Getúlio nessa dos dois partidos. Mas tampouco tentou virar ditador, como nosso conterrâneo são-borjense. O presidente terá alguns tremendos desafios pela frente, a começar pelo fato de sua base ser minoritária no parlamento. Outro problema é agradar a um empresariado horrorizado com os gastos públicos, que se refletem negativamente na economia. Mas não lhe falta habilidade, assim como não faltava a Getúlio. Terá agora de exercitá-la ao máximo, para tentar governar um país cindido ao meio
Humberto Trezzi


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