Como a história de fé, luta e resistência de jesuítas e guaranis originou o RS e forjou a identidade gaúcha

Quando tudo era campo, e céu e chão se confundiam num horizonte de natureza intocada, um novo modelo de sociedade deu contornos iniciais ao que viria a ser chamado de Rio Grande do Sul. Ao cruzar para a margem oriental do Rio Uruguai, em 3 de maio de 1626, padres jesuítas e povos guaranis construíram no pampa recém-descoberto uma utopia baseada na fé e na liberdade.
Quatrocentos anos depois, a herança dos primeiros povoados missioneiros guarda a essência do gaúcho. Em cada redução jesuítica erguida por estas plagas, germinaram características fundamentais que forjaram o Estado: o consumo de churrasco e chimarrão, a expansão da agricultura e da pecuária, o aprimoramento da funilaria, a convivência nas praças, o aprendizado da ciência e o culto às artes

Sua fachada arqueada à frente por uma inclinação de 1m50cm do teto ao chão faz parecê-la ainda maior, magnetizando os 80 mil turistas que visitam o local todos os anos. Foi no entorno do vilarejo que surgiu a atual São Miguel das Missões.
Com um PIB per capita de R$ 73 mil, segundo maior da região e quase um terço acima da média estadual, o município tem uma urbanidade horizontal, praticamente despida de edifícios e com placas escritas em guarani fixadas nos postes. A riqueza local, sustentada na agropecuária, faz seus 7 mil habitantes conservarem não só o modelo econômico como a memória missioneira.
Foi a cerca de 70 quilômetros a oeste dali que tudo começou. Integrante da Companhia de Jesus, ordem religiosa criada para catequizar fiéis mundo afora, o padre Roque González fundou em São Nicolau do Piratini a primeira redução em solo gaúcho. Surgia o protótipo das primeiras cidades, a praça defronte à igreja, com o casario ao redor.
Ninguém sabe a localização exata do povoado. A missa inaugural foi celebrada em uma barranca do Rio Uruguai onde agora uma placa ostenta a inscrição “Aqui nasceu o Rio Grande”. A praça central do município ainda hoje preserva ruínas da segunda fase das reduções, quando São Nicolau foi refundada, em 1687.
Há pedaços de paredes da igreja, colunas do que seria um entreposto comercial, uma adega subterrânea e o único piso conservado de lajotas e ladrilhos do período. Ao redor de São Nicolau, logo surgiriam outras 17 reduções. Em cada uma delas despontava um jirau, uma plataforma elevada sobre a qual crepitava uma fogueira que poderia ser avistada a 60 quilômetros de distância e servia como elemento de comunicação entre os povos.
Na época, as reduções ocupavam 120 mil quilômetros quadrados, quase metade do território atual do Rio Grande do Sul. Hoje, a região das Missões como a conhecemos ocupa em torno de 10% da área original
Quando González chegou, em 1626, o território gaúcho era chamado de Tape e ocupado por diversas etnias indígenas, como os jês, os guenoas, os charruas e os minuanos. Vindos da Amazônia 2 mil anos antes, os guaranis foram a escolha primordial dos jesuítas pela elevada espiritualidade e domínio da agricultura. Não foi difícil reduzi-los ao catolicismo, já que muitos eram forçados ao trabalho servil pelos encomenderos, colonizadores espanhóis que dominavam a Argentina e o Paraguai.
— Esses senhores de terra tinham direito a usar os indígenas, mas os jesuítas conseguiram uma dispensa. Aqueles que aceitassem viver na redução, sob a tutela dos padres, ficariam desobrigados de prestar serviço aos espanhóis — conta Maria Cristina Bohn, professora da Unisinos e coordenadora do Projeto Missões Jesuíticas Guaranis
A aparente harmonia disfarçava um incômodo dos missionários com hábitos guaranis, como a poligamia, o consumo do cauim, bebida alcoólica feita de mandioca ou milho, e a antropofagia, ritual em que os indígenas comiam a carne de inimigos. O conflito era sobretudo com os pajés, guias espirituais de enorme influência sobre os caciques. O desconforto se transformou em tragédia a 15 de novembro de 1628, quando o pajé Nheçu sentenciou três jesuítas à morte.
Roque González e Alonso Rodríguez foram atacados a golpes de tacape e clava durante a festa de inauguração do sino da igreja. Roque teve o coração arrancado. Rodríguez, o corpo partido ao meio. Dois dias depois, Juan del Castillo foi esfolado vivo, com os olhos vazados por flechas.
A memória dos padres é cultuada no Santuário de Caaró, em meio a um bosque onde teria ocorrido o martírio. Nos festejos dos 400 anos das Missões, a capela situada a 30 quilômetros de Caibaté vai receber o coração de Gonzalez, preservado como relíquia no Paraguai
Gado, erva-mate e cultura guarani
Padres e guaranis cultivavam juntos nas missões lavouras de milho, mandioca, amendoim, feijão e algodão, plantavam tabaco e mantinham extensos ervais, base da economia das reduções.
Introduzido pelos jesuítas em 1634, o gado se multiplicava nas vacarias e movimentava um próspero mercado de couro, à época o principal derivado de um rebanho que hoje é um dos maiores do país e reconhecido pela qualidade. Os guaranis sapecavam a carne, consumida quase crua, e se encantaram com o leite, usado na alimentação e na fabricação de queijos.
A base do que nós chamamos de mundo gaúcho hoje, toda nasce nas missões. O gado que se espalha, as ovelhas, os cavalos que entraram antes. É um conjunto de processos históricos que compreendem a lógica de como chegamos nos dias atuais.
JOSÉ ROBERTO DE OLIVEIRA
Historiador

Chegada dos Bandeirantes
A tranquilidade nas reduções seria rompida pela chegada dos bandeirantes, invadindo cada vez mais o Tape para escravizar indígenas. Em 1641, ocorre a maior batalha naval do Rio Grande do Sul. Usando canhões feitos de taquara revestida de couro, que se desmanchavam ao quarto disparo, os guaranis emboscaram os bandeirantes no Rio Uruguai em Mbororé, na Argentina.
— Os guaranis foram muito inteligentes. Colocaram a artilharia em balsas, protegidas por um parapeito de tronco. Com os canhões num rio estreito, esparramaram os bandeirantes. Quando eles chegaram nas margens, os indígenas estavam esperando — conta Tau Golin, historiador especialista na formação do Estado.
Formação dos Sete Povos
As bandeiras foram derrotadas, mas os jesuítas abandonaram as reduções. Eles só voltariam a partir de 1682, na segunda fase das missões, quando fundam sete povos:
- São Borja,
- São Nicolau,
- Santo Ângelo,
- São Luiz Gonzaga,
- São Lourenço Mártir,
- São João Batista e
- São Miguel Arcanjo.
A retomada fez esses povoados protagonizarem um apogeu civilizatório. Os guaranis moldavam o couro, a madeira, a cerâmica, o metal e as fibras vegetais, sabiam ler e escrever, falavam português e espanhol. Eram escultores, pintores e ourives. Cantavam em latim. Havia corais de mil vozes acompanhando orquestras de harpas, violinos, trombetas e clavicórdios
O comércio de erva-mate, couro cru e farinha de mandioca, além do gado vivo que atraiu tropeiros rumo às lavras de Minas Gerais, movimentava uma economia em expansão. Não havia escassez de dinheiro para pagar os impostos à Coroa Espanhola, e a harmonia social era mantida por uma governança que mesclou o cacicado indígena ao cabildo espanhol, um sistema que mantém a disciplina sob a égide do catolicismo.
A pecuária, em primeiro momento, e a própria experiência com a funilaria estão na origem de toda a riqueza do Rio Grande do Sul. Em relação aos serviços, os índios foram formados nas reduções por vários conhecimentos, principalmente marcenaria e arquitetura. Isso tudo vai ser bem de consumo adquirido, porque, quando terminam as reduções, esses índios são absorvidos nas cidades e vilas que nós temos em todo o Estado. São legados que a redução deixa para o povo gaúcho, com o mate, com o gado e com a própria fundição. Isso permanece e interfere positivamente até hoje na construção de valor do povo gaúcho.
PADRE FELIPE SORIANO
Curador do Memorial Jesuíta da Unisinos
Derrocada da utopia e transformações no Sul
Tamanha prosperidade não passaria despercebida à cobiça territorial dos colonizadores europeus. Com uma população estimada em 30 mil pessoas, as reduções não aceitam o Tratado de Madri, pelo qual a Espanha entrega os Sete Povos a Portugal em troca da Colônia de Sacramento.

Liderados por Sepé Tiaraju, os guaranis deflagram a Guerra Guaranítica e encharcam o pampa de sangue. O conflito se encerra com uma matança nas coxilhas do Caiboaté, em São Gabriel, onde 1,5 mil guaranis são massacrados pela soldadesca luso-espanhola, no maior morticínio já visto no Estado. É a derrocada da utopia missioneira.
Desde então, o Rio Grande do Sul passou por grandes transformações. O urbanismo desenvolveu as cidades, a educação expandiu o conhecimento, e a produção primária alargou as fronteiras agrícolas. Cunhado nas reduções, o espírito nômade e indômito do gaúcho fez do Estado a quinta maior economia do país.
Acompanhe os próximos episódios desta reportagem
Uma série de sete reportagens mostra como o experimento social dos Sete Povos das Missões ecoa no cotidiano gaúcho, impulsionando o futuro a partir da fundação de nossas tradições. Veja o calendário das próximas publicações:
- 8/5 — Organização social e política
- 15/5 — Economia
- 22/5 — Cultura
- 29/5 — Costumes
- 5/6 — Guerra Guaranítica
- 12/6 — Memória
Fábio Schaffner


.png)






.jpg)
 2-1-26.png)
.png)