JAIRO
Jairo do Nascimento nasceu em Joinville, Santa Catarina, em 23 de outubro de 1946. Alto, com 1,92 metro de altura, começou a construir sua carreira profissional no Caxias, de sua cidade natal, onde permaneceu durante a segunda metade dos anos 1960. Foi ali que começou a chamar atenção pelas características que marcariam sua trajetória: presença física, segurança debaixo das traves e grande capacidade para defender bolas difíceis.
Em 1969, Jairo chegou ao Fluminense, no Rio de Janeiro. No clube, encontrou uma equipe que vivia um momento importante e passou a trabalhar sob o comando de Telê Santana. Apesar de ser utilizado principalmente como reserva de Félix e Jorge Vitório, fez parte do elenco tricolor que conquistou o Campeonato Brasileiro de 1970. Entre 1969 e 1971, disputou 17 partidas pelo Fluminense.
A falta de oportunidades como titular fez Jairo buscar novos caminhos. Em 1972, transferiu-se para o Coritiba, decisão que mudaria definitivamente sua trajetória. No clube paranaense, encontrou espaço para mostrar todo o seu potencial e rapidamente se transformou em um dos principais jogadores da história do Coxa.
Jairo participou de uma época extraordinária do Coritiba. Entre 1972 e 1976, esteve presente em uma equipe que conquistou cinco Campeonatos Paranaenses consecutivos. Em 1973, também fez parte do time campeão do Torneio do Povo, competição que reunia clubes de grandes torcidas de diferentes estados brasileiros.
Foi justamente no Coritiba que surgiu uma das primeiras grandes marcas de sua carreira. Em 1972, Jairo permaneceu 905 minutos sem sofrer gol, estabelecendo naquele momento um recorde nacional de invencibilidade para goleiros. A marca seria posteriormente superada pelo próprio Jairo, quando ele chegasse ao Corinthians.
As atuações pelo Coritiba também abriram as portas da Seleção Brasileira. Em 1976, Jairo foi convocado para defender o Brasil na Copa Rio Branco. Tornou-se titular na partida de volta contra o Uruguai, disputada em Montevidéu, e ajudou a Seleção a conquistar o troféu. Foi sua única partida pela equipe principal brasileira.
A convocação teve um significado histórico. Jairo se tornou o primeiro goleiro negro a ser titular da Seleção Brasileira desde Veludo, seu ídolo de infância, que havia ocupado a posição duas décadas antes. Mais do que uma estatística, aquele momento representava a chegada de um goleiro negro formado fora do eixo tradicional dos grandes clubes cariocas e paulistas ao gol da Seleção.
Ainda em 1976, Jairo deixou o Coritiba e seguiu para o Corinthians. No Parque São Jorge, inicialmente encontrou Tobias como titular. Sua oportunidade definitiva apareceu posteriormente e, em 1979, Jairo assumiu a posição principal durante a campanha que levaria o Corinthians a conquistar novamente o Campeonato Paulista. O título encerrou um jejum de quase 23 anos sem o principal campeonato estadual do clube.
Mas foi no Corinthians que Jairo estabeleceu a marca mais impressionante de sua carreira. Durante o Campeonato Brasileiro de 1978, passou 1.132 minutos sem sofrer gol, uma sequência de quase quatro meses. Foram mais de 12 partidas de futebol sem que a bola encontrasse as redes corintianas. Durante muitos anos, o número foi reconhecido como a maior sequência de invencibilidade de um goleiro no Campeonato Brasileiro. A marca somente foi superada em 2022, quando Alex Alves, do São Bernardo, chegou a 1.195 minutos.
Aquele Corinthians também entrou para a história por outra razão. Jairo fazia parte de uma escalação formada majoritariamente por jogadores negros, ao lado de Zé Maria, Wladimir, Mauro, Amaral, Caçapava, Basílio, Biro-Biro, Píter, Geraldão e Romeu. A fotografia daquela equipe tornou-se posteriormente uma referência importante para a história da representatividade negra no futebol brasileiro.
Em 1979, Jairo viveu outro momento importante. O Campeonato Paulista daquele ano terminou somente em fevereiro de 1980, após uma série decisiva contra a Ponte Preta. O Corinthians venceu a finalíssima por 2 a 0, no Morumbi, com Jairo no gol. A conquista consolidou sua posição como um dos principais goleiros da história corintiana daquela geração.
Sua passagem pelo Corinthians, entretanto, terminou de maneira turbulenta. Em 1980, o presidente Vicente Matheus o responsabilizou publicamente por uma falha em uma partida do Campeonato Brasileiro. O episódio provocou uma reação dos próprios jogadores. Em uma partida posterior contra o Grêmio, vencida pelo Corinthians por 5 a 0, os companheiros fizeram questão de atravessar o campo e comemorar os gols junto de Jairo, demonstrando apoio ao goleiro.
Depois de deixar o Corinthians, Jairo passou pelo Náutico e posteriormente retornou ao Coritiba. A segunda passagem pelo clube paranaense trouxe outro momento histórico: em 1985, integrou o elenco que conquistou o Campeonato Brasileiro, o maior título da história do Coritiba. Naquela campanha, porém, era reserva de Rafael Cammarota. Mesmo sem ser o titular na campanha nacional, o goleiro fazia parte do grupo que conquistou o título mais importante da história do clube.
Jairo permaneceu ligado ao Coritiba até 1987 e, ao longo de suas duas passagens, tornou-se o jogador que mais vezes vestiu a camisa do clube. As fontes apresentam números diferentes dependendo do critério utilizado para contabilizar partidas, mas o Coritiba e órgãos esportivos do Paraná registram 440 jogos como a marca de sua trajetória pelo clube.
Depois do Coritiba, ainda atuou pelo América Mineiro e pelo Atlético de Três Corações, encerrando sua carreira no futebol profissional em 1989. Ao longo de sua trajetória, passou por Caxias, Fluminense, Coritiba, Corinthians, Náutico, América Mineiro e Atlético Três Corações, além da Seleção Brasileira.
Depois de parar de jogar, Jairo permaneceu ligado ao futebol e passou a trabalhar especialmente com crianças. Em 2017, por exemplo, ainda comandava uma escolinha e treinava jovens, transmitindo a experiência adquirida durante mais de duas décadas como goleiro profissional.
Nos últimos anos de vida, Jairo enfrentou um câncer nos rins. Em 2018, amigos, familiares e admiradores organizaram a campanha “Defenda o Jairo” para ajudá-lo com os custos dos medicamentos. Em janeiro de 2019, recebeu uma homenagem no Paraná, quando seu nome foi utilizado no troféu entregue durante o Projeto Verão Paraná.
Jairo morreu em Curitiba, em 6 de fevereiro de 2019, aos 72 anos. Sua trajetória havia começado em Joinville e passado por alguns dos principais clubes do futebol brasileiro, mas foi principalmente em Curitiba e São Paulo que construiu sua imagem como um goleiro de referência
Um Cadin de Café


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