“Hospital planetário” promete curas e cirurgias com ETs em Novo Hamburgo

Uma fila se formava na entrada de uma casa na Rua Tupi, no bairro Rio Branco, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, por volta do meio-dia de uma sexta-feira. Carros ocupavam a via, enquanto pessoas aguardavam a vez de entrar. No dia em que a reportagem esteve no Instituto Klyfon, cerca de 30 visitantes buscavam cura. Havia pacientes em cadeiras de rodas, com doenças graves, e outros em busca de alívio emocional.
À primeira vista, o local parece uma residência comum. Mas é ali que, segundo os fundadores do instituto, Sandro Gabriel de Souza, 54 anos, e Patrícia Cristina de Souza, 51, extraterrestres conduzem cirurgias, reorganizam estruturas celulares e promovem a cura de doenças. A filha do casal, Nicole, 22 anos, também atua no instituto, principalmente na comunicação e nas redes sociais.
O casal chama o local de hospital planetário e afirma promover trabalhos a partir de orientações recebidas de seres de outros planetas.
— Por mais diferente que possa parecer, a condução do nosso trabalho é com extraterrestres — resumiu Souza.
A casa seria um “portal” para que ETs benevolentes atuem no desenvolvimento de humanos. Segundo os fundadores, os seres envolvidos nos procedimentos seriam de diferentes sistemas e dimensões, entre eles a constelação Lipidiana — origem de Klyfon, o ET que dá nome ao hospital.
Pelo jardim da casa, há estátuas de alienígenas e um outdoor informando que ali é o “QG da purificação transcendental”. Apesar de ninguém conseguir enxergar a nave-mãe nem existirem fotografias ou gravações que comprovem sua presença, o casal afirma que ela paira sobre a residência.
— A nave está aqui, sim, e está conectada a cada estrutura que acontece aqui no instituto — garante Souza.
O casal conta que a história começou em 2020. Certa noite, enquanto os dois se preparavam para dormir, Patrícia teria sentido um perfume de rosas no ambiente. Na sequência, Souza teria começado a receber mensagens que, segundo ele, ultrapassavam qualquer experiência espiritual ou dimensional que já havia vivido. Atualmente, eles não possuem outra ocupação.
As mensagens seriam de Klyfon e convocariam o casal para um trabalho multidimensional voltado à cura e à expansão da consciência humana, incluindo lançamento de livros, participação em palestras e realização de cirurgias estelares.
— Quando essa estrutura de conhecimento começou a ficar distante do espiritismo e se aproximar de uma multidimensionalidade, eu comecei a entender que o que estava acontecendo era uma comunicação que vinha das galáxias — relata Sandro, que apresenta o instituto como um “espaço de trabalho voltado às energias universais”, e não como uma religião ou uma nova doutrina.
Cirurgias sem cortes
Entre os mais de 20 serviços oferecidos pelo Instituto Klyfon, estão as chamadas “cirurgias espaciais estelares”. A promessa de cura é ampla: a tecnologia galáctica seria capaz de corrigir “quase tudo que não seja estética”, segundo a descrição do site da instituição.
A lista inclui câncer, diabetes, dependência química, alcoolismo, glaucoma, doenças cardíacas e renais, esclerose múltipla, Alzheimer, fibromialgia, doenças autoimunes e depressão, segundo o casal.
Os responsáveis afirmam que o atendimento deve ser complementar aos tratamentos médicos convencionais e que mudanças de medicamentos exigem orientação médica.
— A orientação é justamente continuar tudo o que tu estás fazendo, com esse tratamento como um complemento — ressalta Patrícia.
Os procedimentos duram de três a sete minutos e seriam conduzidos por Wontal, descrito pelos fundadores do instituto como um “geneticista estelar” de origem arcturiana.
Souza diz canalizar o ser extraterrestre — uma experiência similar à incorporação de entidades — e conduzir as intervenções na Terra. Cortes, suturas, reorganização de estruturas biológicas fariam parte do procedimento, mas tudo aconteceria, segundo os responsáveis, no chamado corpo etérico, sem incisão ou intervenção física.
A movimentação no dia 25 de setembro, quando a reportagem acompanhou, começou antes mesmo do horário previsto para as atividades coletivas, às 13h30min. Por volta das 10h, já havia pacientes chegando para garantir lugar.
Os primeiros a aparecer haviam viajado de Santa Catarina para o Vale do Sinos. Um homem que enfrenta câncer de rins procurava uma alternativa para reforçar o tratamento convencional. Apesar de não querer conversar com a reportagem, ele indicou a uma das voluntárias do local que havia saído cedo da cidade onde mora para garantir uma ficha de atendimento.
Alguns disseram recorrer a diferentes santos, entidades e práticas de cura para reforçar o tratamento médico. Outros já haviam perdido a esperança na medicina tradicional e buscavam uma solução diferente.
— Achei que foi válido. Eu sou uma pessoa muito espiritualizada, acredito na força divina, em forças maiores. Esses quatro últimos dias ela teve uma melhora muito grande. Eu fiz uma quaresma de São Miguel que terminou anteontem. Foi no dia que ela estava super bem. Foi dia também de Padre Pio, que é o padre da cura, da saúde. Então, foi tudo junto. Eu resolvi brindar esse momento trazendo ela aqui no Hospital Planetário — disse Fabíola Almeida Rumich, 52 anos, que levou a mãe, Maria Isabel Nunes de Almeida, 75, ao instituto pela primeira vez.
A idosa tem Alzheimer e demência vascular e, há cerca de um mês, havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Após permanecer 16 dias internada em um hospital de Porto Alegre, recebeu alta com dificuldades para falar e responder a estímulos. Na mesma sala, outros dois pacientes aguardavam por uma cura, enquanto o alienígena Wontal a atendia.
No local, a voluntária Teresinha Sirlei dos Santos chegou a testemunhar à equipe de Zero Hora que, após uma sessão de cirurgia estelar, um nódulo renal identificado em um exame feito dias antes teria desaparecido. Ela, porém, não tinha os exames em mãos para apresentar.
Durante o ritual coletivo, realizado em uma sala com três macas, Souza vestia um jaleco branco com o brasão do hospital planetário e a imagem de um alienígena azul bordada — confeccionada, de acordo com ele, conforme instruções dos seres multidimensionais. Segurando instrumentos como cristais e lasers de luz, ele citava estímulos como reprogramação molecular e alteração dos níveis de substâncias como ocitocina e endorfina para os pacientes.
Procedimentos pagos
Na casa, os cerca de 10 cômodos são preparados previamente para diferentes atividades. A garagem funciona como uma espécie de sala de espera, com cadeiras para quem aguarda a cirurgia e uma televisão que apresenta detalhes dos serviços oferecidos.
As salas têm nomes de galáxias e referências ao espaço. Uma delas é reservada ao estoque de fitoterápicos vendidos após as cirurgias. Os produtos são indicados pelo ET no final do procedimento. Entre eles estão o chamado “kit câncer” e o “bálsamo da vida”. A reportagem viu produtos que custam a partir de R$ 27.
Outro cômodo abriga uma estante com cerca de 120 cristais, que seriam utilizados para diferentes propósitos. No local, também ficam equipamentos que, segundo o instituto, ajudariam a estimular a glândula pineal — apontada pelos responsáveis como uma porta de entrada para o plano espiritual e multidimensional —, como toucas com eletrodos e um aparelho metálico para as têmporas.
Entre os trabalhos oferecidos, há serviços gratuitos e pagos. As cirurgias coletivas não são cobradas. Já os atendimentos individuais custam entre R$ 250 e R$ 330. O local também oferece cursos, palestras e atividades relacionadas ao chamado “despertar da consciência”.
Os fundadores justificam que os valores arrecadados custeiam despesas de subsistência pessoal (como moradia e alimentação), além da manutenção do local, compra de instrumentos e realização de viagens relacionadas às atividades do Instituto.
Parte do valor arrecadado também deverá ser destinado para a construção de um novo hospital, de três andares e envidraçado, em um terreno já adquirido ao lado da sede atual.
O que diz a ufologia
A existência de relatos de contatos entre humanos e supostos extraterrestres não é novidade dentro da ufologia. O ufólogo Hérnan Mostajo relembra que, ao longo da história, houve diversos relatos de pessoas que atribuíram curas a extraterrestres. Esses episódios, porém, costumam ser relatos individuais, e não estruturas organizadas como um hospital ou clínica.
— Faz parte da cultura milenar da civilização humana crer em algo superior (…) Mas cabe somente e unicamente à ciência nos dar uma prova cabal da existência da vida extraterrestre. Essa prova cabal nós ainda não possuímos — alertou Mostajo, que é fundador do Museu Internacional de Ufologia, História e Ciência de Itaara, na região central do Rio Grande do Sul.
Casos de canalizações, de acordo com ufólogo Rafael Amorim, precisam ser tratados com cautela porque, sem elementos externos que permitam verificar a informação — como costuma ocorrer na ufologia tradicional a partir de filmagens ou testemunhas oculares —, não é possível determinar se uma mensagem canalizada realmente veio de um extraterrestre.
— Pode ser qualquer coisa se dizendo um extraterrestre — avalia, citando o exemplo de espíritos.
Na região metropolitana de Porto Alegre, Zero Hora mapeou apenas três espaços que trabalham com a proposta de curas extraterrestres, incluindo o Instituto Klyfon. Todos atuariam com seres identificados como arcturianos.
— Independente do que for, importa que faça o bem. Eu vejo dessa forma — concluiu Amorim.
O que diz o Cremers
Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) ressaltou que apesar de garantir acolhimento e conforto, “práticas religiosas, espirituais, culturais ou de caráter alternativo não substituem a assistência médica”, por esse motivo, “não devem ser apresentadas ou utilizadas como substitutas dos tratamentos médicos”. Veja a nota na íntegra:
“O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) respeita as diferentes manifestações culturais e religiosas presentes na sociedade e reconhece que a fé e a espiritualidade podem representar uma importante fonte de apoio, acolhimento e conforto para muitas pessoas durante o processo de adoecimento.
O Cremers ressalta, no entanto, que práticas religiosas, espirituais, culturais ou de caráter alternativo não substituem a assistência médica. Essas abordagens não dispõem de comprovação científica ou de critérios que permitam estabelecer sua eficácia para o diagnóstico, o tratamento ou a cura de doenças. Por isso, não devem ser apresentadas ou utilizadas como substitutas dos tratamentos médicos.
O diagnóstico de doenças, a indicação de tratamentos e o acompanhamento da evolução clínica são atos privativos do médico, conforme estabelece a legislação que regulamenta o exercício da Medicina. Diante de sinais ou sintomas, é fundamental que o paciente procure avaliação médica.
Práticas relacionadas à fé, à espiritualidade ou à cultura podem fazer parte da vivência e das crenças individuais e, quando desejadas pelo paciente, podem coexistir com o cuidado em saúde. Jamais devem substituir, interromper ou retardar o diagnóstico ou o tratamento médico, que devem ser conduzidos com base em critérios técnicos, evidências científicas e na avaliação do médico responsável pelo paciente.”
Fonte: Rádio Gaúcha / GZH


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