Falência global da água: como o Rio Grande do Sul sente os efeitos da ameaça hídrica

A falência hídrica ocorre quando a retirada de água de um sistema supera, de forma contínua, sua capacidade natural de reposição Foto : Cristina Quicler / AFP / CP
O alerta lançado por cientistas ligados à Organização das Nações Unidas (ONU), que define o mundo como vivendo a chamada “era da falência global da água”, não descreve um risco distante ou abstrato. No Rio Grande do Sul, esse processo já se manifesta de forma concreta por meio de estiagens recorrentes, pressão sobre sistemas de abastecimento, prejuízos econômicos e impactos crescentes sobre rios, aquíferos e bacias hidrográficas.
Segundo o relatório Global Water Bankruptcy, elaborado pelo Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), a falência hídrica ocorre quando a retirada de água de um sistema supera, de forma contínua, sua capacidade natural de reposição.
Nesse cenário, mesmo regiões que registram enchentes em determinados períodos podem estar ameaçadas, caso o uso do recurso ao longo do tempo seja insustentável.
A condição, portanto, não está relacionada apenas à aparência de um território — se é úmido ou seco —, mas ao equilíbrio entre disponibilidade, demanda, qualidade da água e gestão dos sistemas hídricos.
Um alerta global com reflexos locais
O conceito de falência global da água parte de uma analogia da área econômica ou das finanças. Assim como ocorre em um processo de quebra financeira, os sistemas hídricos estariam operando além de sua “renda natural”, consumindo reservas acumuladas ao longo de décadas ou séculos, como aquíferos, solos e áreas úmidas.
“O conceito de falência hídrica é resultado de um processo insustentável. Diferente de uma crise, que é um choque temporário seguido de recuperação, a falência indica que o sistema perde a capacidade de se recompor”, explica o professor Guilherme Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), líder do Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH).
|
Fonte: Relatório Global Water Bankruptcy da ONU |
|
|
Principais causas da falência da água |
Principais caminhos apontados pelo relatório |
|
Uso da água acima dos limites naturais |
Reconhecer a falência hídrica como um risco sistêmico |
|
Produção agrícola intensiva |
Aceitar limites físicos e ecológicos da água |
|
Poluição e degradação ambiental |
Proteger o capital natural |
|
Perda de geleiras e mudanças no ciclo hidrológico |
Adaptar economias e sistemas produtivos |
|
Secas induzidas pela ação humana |
Transformar setores intensivos em consumo de água |
|
Má gestão dos recursos hídricos |
Integrar justiça social às políticas hídricas |
Modelo econômico amplia pressão sobre água e solo
Para a economista Rita Pauli, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e líder do Grupo de pesquisa Desenvolvimento, Governança, Inovação Social e Sustentabilidade, o problema é intersetorial e está ligado ao modelo de desenvolvimento adotado pelo país nas últimas décadas.
Segundo ela, o avanço das commodities agrícolas e a reprimarização da pauta exportadora — processo em que a economia passa a depender cada vez mais da exportação de produtos primários, como grãos e matérias-primas, em vez de bens industrializados — ampliaram de forma significativa a pressão sobre os recursos naturais.
Nesse modelo, grandes extensões de terra passam a ser ocupadas por monoculturas voltadas ao mercado externo, altamente dependentes de água, insumos químicos e uso intensivo do solo, o que acelera o esgotamento dos sistemas naturais.
Outro fator apontado é a expansão das sementes transgênicas, associada ao aumento do uso de agrotóxicos.
“Hoje temos um problema seríssimo de que estamos usando mais veneno do que antes e a água existente é cada vez mais contaminada”, diz Pauli. Atualmente, mais de 90% da soja e do milho cultivados no país utilizam sementes transgênicas.
Eventos climáticos extremos no RS e efeitos sobre a agricultura
No Rio Grande do Sul, os efeitos do desequilíbrio hídrico têm se intensificado. Na última década, o Estado enfrentou sucessivas estiagens que afetaram tanto o abastecimento urbano quanto a produção agrícola.
Entre 2020 e 2022, a falta de chuvas comprometeu lavouras e levou dezenas de municípios a decretar situação de emergência. Já em 2023 e 2024, cheias extremas se alternaram com períodos de escassez, enquanto em 2025 diversas cidades voltaram a registrar dificuldades no fornecimento de água.
Dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil indicam que, entre 1991 e 2024, o país registrou 32.453 ocorrências de estiagens e secas. O Rio Grande do Sul respondeu por 11,98% desses eventos, ocupando a segunda posição no ranking nacional. Para a ONU, a redução do intervalo entre episódios extremos é um dos sinais de falência hídrica, já que os sistemas naturais não dispõem de tempo suficiente para se recuperar.
Anos das ocorrências de estiagens e secas no RS (1991-2024)
*Para
2024, foram considerados os dados até 24 de junho. | Foto: MDR - Atlas
Digital de Desastres no Brasil
Em períodos prolongados de estiagem, os impactos rapidamente se refletem no cotidiano da população. Municípios adotam rodízios no abastecimento, decretam emergência hídrica e recorrem a caminhões-pipa, especialmente em áreas rurais e periferias urbanas. Com sistemas de captação operando no limite, cresce a vulnerabilidade a falhas, sobretudo em regiões com infraestrutura precária e saneamento insuficiente.
Segundo o relatório da ONU, quando a escassez compromete a produção agrícola em uma região, os efeitos se espalham por meio dos mercados, dos preços dos alimentos e da segurança alimentar.
“A crise hídrica também é global porque suas consequências se propagam”, afirma Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH. “Os sistemas alimentares estão interligados pelo comércio e pelos preços. Quando a escassez afeta a agricultura em uma região, os impactos alcançam outros países”.
Bacias hidrográficas do RS em estado de atenção
O Rio Grande do Sul é dividido em três grandes regiões hidrográficas — Uruguai, Guaíba e Litoral — que reúnem 25 bacias responsáveis pelo abastecimento humano, pela irrigação e pela manutenção dos ecossistemas no estado. Segundo Marques, parte dessas bacias já apresenta sinais de desequilíbrio estrutural entre o uso da água, a ocupação do território e a capacidade natural de reposição dos sistemas.
Entre as situações mais críticas estão as bacias dos rios Sinos e Gravataí, além de trechos do rio Caí, impactadas pela poluição e pela baixa cobertura de coleta e tratamento de esgoto. Na região Oeste e de Fronteira, áreas estratégicas para a agropecuária enfrentam alta vulnerabilidade a estiagens. Já as bacias do Taquari e do Guaíba demandam atenção pela recorrência de cheias extremas, agravadas pela ocupação de áreas de inundação natural.
A avaliação do professor é que enfrentar esses desafios exige ações estruturais, como ampliação do saneamento básico, adaptação da produção agropecuária, planejamento do uso do solo e fortalecimento da gestão integrada das bacias.
Crise hídrica aumenta desigualdades
A falência da água não se limita ao campo ambiental. O colapso dos sistemas hídricos afeta economias, pressiona orçamentos públicos e aprofunda desigualdades sociais.
Para Pauli, a crise hídrica expõe uma contradição estrutural: enquanto há desperdício em áreas e setores com maior renda, uma parcela significativa da população vive em situação de escassez ou sem acesso regular à água potável. No Brasil, cerca de 33 milhões de pessoas não têm acesso à água potável, segundo dados do Instituto Trata Brasil.
“Quando acontecem, cheias ou estiagens atingem primeiro essas populações vulneráveis, que são aquelas que menos contribuem para o problema. Quem menos polui é, muitas vezes, quem mais sofre”, afirma a economista.
O que pode ser feito no RS
No caso do Rio Grande do Sul, especialistas apontam que ainda há margem para reverter o atual quadro de pressão sobre os recursos hídricos, desde que se abandone a lógica de respostas apenas emergenciais e avance para uma gestão baseada em processos de longo prazo.
Isso passa por fortalecer o planejamento integrado, reconhecer os limites de cada bacia hidrográfica e usar a água de forma mais estratégica, planejada e eficiente — e não apenas buscar novas formas de ampliar a oferta.
Segundo o professor Guilherme Marques, da Ufrgs, é fundamental recuperar a chamada “capacidade de produção” da água, o que envolve a proteção de nascentes, matas ciliares, solos, áreas úmidas, várzeas e aquíferos, além da adoção de práticas agrícolas mais adequadas e de tecnologias de irrigação mais eficientes.
Além disso, Rita Pauli defende que as soluções passem por uma abordagem intersetorial, que integre políticas de água, desenvolvimento econômico, agricultura e proteção social.
Entre as alternativas, a professora destaca o fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia e da economia solidária, que utilizam tecnologias mais adaptadas aos ciclos naturais e tendem a demandar menos água e menos insumos químicos.
“Não se pode fechar os olhos para as antigas formas de produzir. Já está mais que comprovado que tem como utilizar tecnologias mais sustentáveis sem criar risco para a segurança alimentar”, diz.
Ela também cita políticas públicas que criam cooperação entre produção, renda e alimentação saudável, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). “São políticas ganha-ganha: geram renda para a agricultura familiar e aumentam a oferta de alimentos saudáveis para as escolas”, afirma.
Veja mais dados sobre o relatório da ONU
Sinais do colapso hídrico global
- Principais aquíferos do planeta apresentam declínio de longo prazo;
- Mais de 40% da irrigação mundial depende de reservas subterrâneas em esgotamento;
- Metade dos grandes lagos perdeu volume desde os anos 1990;
- Extensas áreas úmidas desapareceram nas últimas décadas;
- Grandes rios deixam de alcançar o mar em parte do ano.
Custos sociais e econômicos da crise
- 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água ao menos um mês por ano;
- 3 bilhões vivem em regiões com queda no armazenamento de água, responsáveis por mais da metade da produção global de alimentos;
- Perdas econômicas somam trilhões de dólares por ano, entre danos ambientais e custos diretos das secas.
.Correio do Povo


.png)






.jpg)
 2-1-26.png)
.png)