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Por Grande Santa Rosa Notícias. Publicado em 31/01/2026 as 01:58:53

Para blindar eleição, Lula quer ‘pacto’ com Trump de não ingerência em temas domésticos

Viagem deve ocorrer em março e Palácio do Planalto trabalha para evitar "surpresas" por parte da Casa Branca


O primeiro encontro na Casa Branca entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump terá, em sua agenda, um debate sobre o lançamento da cooperação para lidar com o crime organizado, as pendências tarifárias contra produtos brasileiros, a criação do Conselho da Paz e o destino da tensão na América Latina.

A reunião, na Casa Branca, deve ocorrer em março e o governo brasileiro não exclui a possibilita de que os americanos tragam para a mesa o debate sobre investimentos no setor de minérios raros.

Mas, acima de tudo, Brasília entende que a reunião é estratégica para blindar a eleição brasileira de uma ingerência externa. A expectativa é de que algumas negociações sejam concluídas e que novas iniciativas sejam lançadas. Para o governo, portanto, trata-se de um momento para organizar a relação bilateral, depois de um ano marcado por desencontros.

No encontro, o recado de Lula será simples. O Brasil não vai se meter em temas de política doméstica dos EUA — inclusive sobre imigração. Mas vai esperar um compromisso de Trump de não agir sobre temas nacionais do país, principalmente num momento eleitoral.

De fato, na reunião por telefone entre os dois líderes, a questão migratória não foi tratada pelo governo Lula. A medida foi uma ação deliberada do Palácio do Planalto numa sinalização de que o Brasil colocaria uma linha vermelha na relação bilateral.

A avaliação do Palácio do Planalto é de que, na eleição presidencial de 2026, a agenda internacional terá um peso significativo na campanha. Flávio Bolsonaro, por exemplo, foi até Israel numa agenda que tinha como objetivo dar munição para a acusação de que Lula seria antissemita. No mesmo dia, o governo organizou uma reunião com entidades judaicas em Brasília.

Desmobilizar bolsonarismo

O respeito pela soberania do outro país é apenas parte da estratégia. Para o Palácio do Planalto, a ofensiva também passa por criar espaços de cooperação que, no fundo, desmobilizem as forças que defendem uma ingerência de Trump no Brasil.

Na conversa telefônica entre Lula e o americano, no início da semana, o presidente brasileiro voltou a falar da necessidade de que os EUA colaborem com o Brasil na luta contra a lavagem de dinheiro de grupos criminosos. A estratégia do governo brasileiro para evitar ser pressionado pela Casa Branca no tema é a de construir uma narrativa de que não existe uma solução que não passe também por uma ação de Washington contra esses grupos.

A esperança de Brasília, portanto, é de que o encontro em Washington lance efetivamente a parceria no combate ao crime organizado, com pontos concretos de atuação. Isso inclui ações contra a lavagem de dinheiro, o compartilhamento de dados financeiros de suspeitos e a busca por pessoas foragidas.

Com isso, o Brasil quer desmobilizar a narrativa do bolsonarismo de usar o crime organizado como uma justificativa para permitir a ingerência externa na eleição.

Outro tema que o Brasil levará para a mesa é a questão das tarifas que ainda estão sendo impostas contra 22% do fluxo de bens exportados pelo país ao mercado americano.

Depois de vários encontros entre ministros e mesmo de conversas entre os presidentes, o governo brasileiro sempre disse que um novo encontro bilateral entre os presidentes apenas ocorreria quando estivesse perto de fechar um acordo comercial.

 

Risco de plataformas digitais

Apesar de esperar resultados concretos para março, o governo brasileiro admite que as ameaças contra a democracia no país continuam. Para o Palácio do Planalto, o maior risco é a ação das plataformas digitais com a difusão de desinformação.

Precauções

Apesar da relação pessoal entre Lula e Trump ser considerada como “positiva”, o Palácio do Planalto trabalha para evitar que a viagem seja marcada por “surpresas” por parte do republicano. A ordem no gabinete é para tomar precauções, diante do comportamento errático do americano.

Ainda que a “química” entre os dois seja uma realidade, o governo não vai baixar a guarda e irá trabalhar para definir o formato do encontro, com blindagens ao presidente brasileiro.

Na reunião entre os dois líderes, na Malásia, Brasília foi surpreendida por uma manobra da Casa Branca para colocar jornalistas para dentro da sala do encontro por alguns instantes.

O governo não esconde que um gesto de deferência de Trump com Lula — transformando a viagem em uma visita de estado — teria um impacto doméstico importante. Mas não há uma definição nesse aspecto.

Lula, portanto, será preparado para vários cenários, ainda que diplomatas acreditam a “margem para mal-criação” está reduzida.

 Jaime Chade


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