Fenômeno El Niño volta a ameaçar o Rio Grande do Sul

Projeções apontam que o evento pode ser de forte a muito intenso, mais potentes que o de 2023-2024 e comparável a 1982-1983 e 1997-1998
Um dos principais responsáveis pelos desastres que assolaram o Rio Grande do Sul no segundo semestre de 2023 e em abril e maio de 2024, o fenômeno El Niño voltará a atuar na faixa equatorial do Oceano Pacífico nos próximos meses e gera alerta global ante a possibilidade indicada por modelos de computador de ser um evento muito intenso. Caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno deve começar a se instalar até o final deste outono ou mais tardar no início do inverno. Neste momento, as condições ainda são de neutralidade, ou seja, sem El Niño ou La Niña, mas as águas superficiais do Pacífico já começaram a aquecer.
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Os dados analisados pela MetSul Meteorologia indicam que o aquecimento das águas superficiais na região equatorial do Pacífico deve se intensificar muito nos meses de maio e junho, levando a um evento de El Niño que ganhará força durante o segundo semestre com pico de intensidade no fim do ano, em torno do Natal, como de costume ocorre. O fenômeno El Niño recebeu esse nome justamente porque pescadores do Peru o associavam ao aquecimento das águas do Pacífico que costuma ocorrer perto do Natal, em referência ao “Menino Jesus”.
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Que haverá um El Niño que chegará mais cedo que o habitual, nos próximos meses, é uma quase certeza, mas a dúvida ainda é sobre a sua intensidade. São crescentes os sinais de que pode ser um evento forte a muito intenso, de maior potência que o de 2023-2024, e comparável aos episódios de 1982-1983 e 1997-1998.
Tais projeções se baseiam em modelos de clima, gerados por computadores de centros internacionais de previsão do tempo, que apontam um El Niño por demais intenso no último trimestre de 2026. Dados de temperatura do mar, abaixo da superfície do oceano, mostram ainda uma quantidade imensa de águas atipicamente quentes no Oceano Pacífico perto da Indonésia, um preditor de eventos intensos de El Niño.
São estas projeções que fizeram ingressar no noticiário a expressão “Super El Niño”, uma possibilidade que começa a ganhar força entre meteorologistas e climatologistas, acendendo um alerta global sobre os impactos que esse fenômeno pode provocar no clima do planeta até o ano que vem.
Projeções recentes de modelos numéricos, como os do Centro Europeu de Previsões de Médio Prazo (ECMWF), indicam um aquecimento expressivo do oceano. Em alguns cenários, o episódio poderia figurar entre os mais fortes já registrados e, nas projeções mais extremas, até o mais intenso El Niño em um século de observações.
Quando dos chamados “Super El Niños”, o aquecimento do mar no Pacifico Equatorial Central e Leste ultrapassa 2°C acima da média histórica. Modelos chegam a projetar 2,5ºC a 3ºC. Neste nível de anomalia, há um grande impacto na atmosfera, tornando os efeitos do fenômeno mais fortes, persistentes e abrangentes.
Eventos com a magnitude indicada pelos modelos de clima para o segundo semestre de 2026 são relativamente raros, ocorrendo, em média, a cada 10 a 15 anos. Exemplos recentes incluem os episódios de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016, todos associados a impactos climáticos severos em várias partes do mundo.
O evento projetado para os próximos meses chama atenção não apenas pela possível intensidade, mas pelo contexto em que ocorre: um planeta significativamente mais quente do que nas décadas anteriores. É justamente esse pano de fundo que preocupa a comunidade científica. O climatologista James Hansen, uma das vozes mais influentes na pesquisa climática global e que liderou a unidade de clima da Nasa, alerta que o aquecimento atual do planeta pode amplificar os efeitos naturais do El Niño.
Segundo Hansen, o sistema climático está hoje mais sensível devido ao aumento contínuo das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera. Isso significa que eventos naturais, como o El Niño, têm maior capacidade de elevar a temperatura global a novos extremos. Em suas análises, mesmo um episódio moderado poderia resultar em recordes históricos de temperatura e um super El Niño tornaria esse cenário ainda mais provável.
É por isso que anos de El Niño frequentemente coincidem com recordes de calor no planeta. O fenômeno atua como um catalisador, liberando calor armazenado e redistribuindo-o pela atmosfera. Caso o evento de 2026 atinja grande intensidade, há uma alta probabilidade de que 2027 seja o ano mais quente da história.
Os efeitos não se limitam à temperatura. Na América do Sul, por exemplo, eventos de El Niño costumam trazer chuva extrema para o sul do Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. No centro do Brasil e no sul da Amazônia, ocorrem potentes onda de calor e o número de queimadas tende a disparar.
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Rio Grande do Sul enfrentará enchentes e podem ser graves
Se mesmo sem El Niño, com La Niña ou neutralidade no Pacífico, o Rio Grande do Sul enfrenta enchentes, o risco de cheias de rios e inundações aumenta consideravelmente sob El Niño. Assim, no entendimento da MetSul Meteorologia, a questão não é se haverá enchentes, mas quantas e qual será a magnitude, o que somente se prevê em curto prazo.
Historicamente, sob El Niño, o período mais crítico para enchentes se concentra no segundo semestre do ano de instalação do fenômeno e no primeiro do ano seguinte, ou seja, o risco será maior na segunda metade de 2026 e na primeira de 2027, sobretudo na primavera de 2026 e no outono de 2027.
Foi o que ocorreu em 2023, último episódio de El Niño. A primeira enchente se deu com um ciclone extratropical na costa do Litoral Norte, em junho, logo no começo do El Niño, o que provocou 16 mortes e um desastre no município de Caraá. As piores cheias, entretanto, aconteceram em setembro e novembro. A cheia do rio Taquari de setembro foi uma das maiores da história e deixou mais de 50 mortos no vale. A de novembro foi muito grande e ainda maior em Porto Alegre. O Guaíba, que não excedia a cota de transbordamento de 3,00 metros desde setembro de 1967, rompeu a marca duas vezes em 50 dias na primavera de 2023.
Na sequência, o grande desastre do fim de abril e maio de 2024, com cheias recordes de rios como Sinos, Caí, Taquari, Jacuí e ainda o Guaíba, em cenário que não se testemunhava desde maio de 1941, com destruição e mais de 200 mortos, incluindo as vítimas por leptospirose que não foram incluídas no balanço oficial da Defesa Civil.
Em 2023 e 2024, as cheias do rio Taquari provocaram dezenas de mortos e um rastro de destruição | Foto: Maria Eduarda Fortes / CP Memória
Uma vez que o El Niño em 2026 vai começar mais cedo e deve ter forte intensidade, não se pode afastar que já no fim do outono haja enchentes. O perigo maior, contudo, será nos meses seguintes, especialmente no inverno e na primavera. O risco prosseguirá no verão de 2027, que pode ter episódios de chuva extrema e cheias, e aumentará no outono de 2027, sendo que o outono do ano seguinte ao começo do El Niño é particularmente de alto risco, em 1941 e em 2024.
Haverá uma catástrofe como a de 2024?
Esta é a resposta que não temos e ninguém pode ter no Brasil ou no mundo, mesmo com todos os recursos avançados de previsão existentes. Isso porque é possível se prever meses antes uma condição favorável à chuva muito acima do normal com risco agravado de enchentes, mas os episódios de chuva extrema que causarão as enchentes apenas são previsíveis dias antes.
O importante é ter em mente que não é porque o fenômeno El Niño vai voltar, e talvez até mais forte que em 2023-2024, que a catástrofe de 2024 se repetirá. A relação não é linear e automática.
Eventos de El Niño muito fortes na história recente, como 1982-1983, 1997-1998 e 2015-16, foram responsáveis por grandes enchentes no Sul do Brasil, mas nada comparado ao que se viu em 2024. Além disso, como cada El Niño tem sua história e é diferente dos outros, no passado os eventos muito fortes tiveram os piores impactos de forma distinta.
Em 1982-1983, Santa Catarina sofreu mais com a chuva do El Niño. Em 1997-1998, particularmente o Oeste do Rio Grande do Sul foi mais afetado. Em 2023-2024, o Rio Grande do Sul quase todo foi duramente atingido.
Além de cada El Niño se manifestar de forma diferente em seus efeitos, em 2024 atuavam outros vários fatores concomitantes ao El Niño e que foram responsáveis por criar o cenário climático que levou à catástrofe, uma “tempestade perfeita” de fatores, e que não necessariamente podem se reunir novamente.
O Centro de Porto Alegre foi tomado pelas águas em maio de 2024 | Foto: Fabiano do Amaral / CP Memória
Quando da enchente de 2024, havia simultaneamente um aquecimento extraordinário e sem precedentes do Atlântico Tropical, o que injetou quantidade imensa de vapor na atmosfera.
Havia ainda dois bloqueios atmosféricos, um sobre o Brasil Central e outro sobre a América Central, que canalizou o excesso de umidade dos trópicos para o Sul do Brasil. O Rio Grande do Sul, além disso, estava entre uma enorme massa de ar muito quente sobre o Brasil e uma grande e poderosa massa de ar frio sobre a Argentina, que deixou temperaturas em maio daquele ano extremamente baixas na Patagônia, que teve um dos meses de maio mais frios da história.
Não bastasse, a atmosfera em escala global ainda sofria os efeitos de injeção massiva de vapor na estratosfera pela erupção do vulcão Honga-Tonga, o que colaborou para piorar o superaquecimento do planeta causado pela soma de El Niño e mudanças climáticas.
E, na Antártida, o chamado Modo Anular Sul ou a Oscilação Antártica (AAO) se encontrava consistentemente em fase negativa no outono de 2024, o que tornou a circulação atmosférica no Hemisfério Sul muito propícia para aumento da chuva no Sul do Brasil.
Assim, o que é possível prever? Que é altíssimo o risco de enchentes nos próximos meses, inclusive algumas mais graves, afetando os estados da Região Sul, inclusive o Rio Grande do Sul. O que não se pode prever? Que haverá enchente com desastre igual ou pior que 2024 porque há uma dependência de vários fatores paralelos ao El Niño que não se pode prognosticar exceto em mais curto prazo.
Por Luiz Fernando Nachtigal e Estael Sias, meteorologistas, com produção de Alexandre Aguiar e arte de Leandro Maciel
Correio do Povo


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