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Por Donato Heinen. Publicado em 04/05/2026 as 18:48:07

O rombo de R$ 7,5 bilhões que o governo quer que você não veja

Governo federal cria mecanismo na LDO 2027 para esconder rombo de R$ 7,5 bilhões das estatais do cálculo da meta fiscal


Agência dos Correios. Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agencia Brasil

Existe uma arte milenar praticada com rara maestria em Brasília: a arte de esconder o óbvio. O governo federal projeta um rombo de R$ 7,5 bilhões nas empresas estatais para 2027. O número está lá, preto no branco, no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias enviado ao Congresso. Mas a equipe econômica encontrou uma solução engenhosa para lidar com o problema.

Não, não é cortar gastos. Não é reestruturar empresas ineficientes. Não é — Deus nos livre — privatizar.

A solução é fingir que o prejuízo não existe.

O PLDO 2027 autoriza a exclusão de até R$ 10 bilhões em despesas do cálculo do resultado primário. Traduzindo do economês para o português: o governo criou uma borracha contábil. Passa-se o apagador sobre o déficit das estatais e, como num truque de mágica, a meta fiscal permanece intacta. Na conta oficial, pelo menos.

A regra beneficia principalmente empresas em “processo de reestruturação” e gastos vinculados ao Novo PAC. Na prática, é um colchão de R$ 10 bilhões para amortecer o impacto de decisões ruins sem que ninguém precise prestar contas por elas.

Agora compare

Quando o assunto é arrecadação, o governo não conhece eufemismos. Cada centavo cobrado do contribuinte é meticulosamente contabilizado. Mas quando o Estado queima bilhões em empresas que dão prejuízo crônico, aí a regra muda. Aí existe “flexibilidade orçamentária”.

Os Correios: o símbolo perfeito da ineficiência estatal

O caso mais emblemático atende pelo nome de Correios. A estatal registrou um prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025. Oito vírgula cinco bilhões. E admite — com uma honestidade quase comovente — que não terá lucro antes de 2028.

O novo mecanismo orçamentário permite que eventuais aportes do Tesouro para salvar a empresa fiquem fora do radar do arcabouço fiscal. Em outras palavras: o governo pode injetar dinheiro público numa empresa que sangra bilhões, e essa operação simplesmente desaparece dos números oficiais.

Se uma empresa privada fizesse isso com seu balanço, o responsável estaria respondendo a processo por fraude contábil. Mas quando o governo faz, chama-se “estratégia fiscal”.

Uma trajetória que só piora

Os números contam uma história que nenhum artifício contábil consegue disfarçar. Em 2024, o déficit das estatais foi de R$ 6,7 bilhões. No acumulado de 2026, o buraco já soma R$ 5,9 bilhões — superando o resultado negativo de todo o ano anterior, com meses ainda pela frente.

A trajetória é clara: os resultados equilibrados do passado desapareceram. O que entrou no lugar foi uma sangria crescente, alimentada por gestão política, aparelhamento e a recusa ideológica em admitir que o Estado não sabe — e nunca soube — administrar empresa.

Mas a manobra não é nova. A estratégia repete artifícios de anos anteriores, sempre com o mesmo objetivo: garantir que o desempenho desastroso das estatais não contamine os demais números do governo. É a velha lógica de varrer a sujeira para debaixo do tapete e chamar a casa de limpa.

A pergunta que ninguém faz

A LDO define as bases do orçamento do ano seguinte. Ao isolar o prejuízo das estatais, o governo compra fôlego no curto prazo. Talvez engane um ciclo eleitoral. Talvez mantenha a aparência de disciplina fiscal por mais alguns meses.

Mas a fragilidade permanece. Os investidores sabem. O mercado sabe. O Congresso, se quiser, também sabe. A diferença entre uma meta fiscal cumprida e uma meta fiscal maquiada é a mesma diferença entre saúde e anestesia: uma resolve o problema, a outra apenas impede que você sinta a dor.

A pergunta que ninguém faz é simples: se o governo precisa criar mecanismos para esconder o prejuízo das estatais, por que insiste em mantê-las?

A resposta, claro, não é econômica. É política. Estatais são cabides de emprego, moeda de troca com o Centrão, instrumento de poder. O prejuízo é apenas um detalhe — desde que possa ser escondido.

E por enquanto, pode. A conta fica para o contribuinte, como sempre. Silenciosa, crescente e inevitável.

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