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Por Donato Heinen. Publicado em 25/05/2026 as 15:50:54

Direita mira desgaste de Lula e faz da segurança principal aposta da eleição

Caiado e Zema tentam nacionalizar modelos estaduais de segurança


Pré-candidatos da direita intensificam disputa pela pauta da segurança pública de olho na eleição presidencial (Foto: Rafa Neddermeyer, Wilson Dias, Lula Marques/Agência Brasil)

Com a violência urbana entre as principais preocupações do eleitorado, pré-candidatos da direita intensificaram a disputa pela pauta da segurança pública mirando a eleição presidencial de 2026. A estratégia explora justamente uma das principais fragilidades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): a percepção negativa da população sobre a área de segurança, apontada como o maior foco de desaprovação da gestão petista por pesquisa Datafolha divulgada em maio.

Segundo a pesquisa, 16% dos entrevistados apontaram a segurança como o principal problema da atual gestão de Lula, à frente de saúde (15%), economia (13%) e combate à corrupção (13%). O instituto ouviu 2.004 eleitores entre os dias 12 e 13 de maio, em entrevistas presenciais realizadas em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o nº BR-00290/2026.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem 43% das intenções de voto no segundo turno, segundo pesquisa desta segunda-feira (25) da Nexus/BTG Pactual. Lula somou 47% e o cenário se configura em um empate técnico (devido à margem de erro de dois pontos percentuais), mas com vantagem para o petista.

O Instituto Nexus ouviu 2.045 entrevistados entre os dias 22 e 24 de maio de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual, tem nível de confiança de 95% e registro no TSE sob o número BR-04193/2026.

Nesse contexto, Flávio pretende acelerar a apresentação das suas propostas de governo na área da segurança pública. A estratégia será por meio da defesa da redução da maioridade penal e do endurecimento da legislação criminal - pautas consideradas de maior apelo entre eleitores conservadores.

A expectativa é de que Flávio encampe publicamente a defesa da PEC que reduz a maioridade penal para 16 anos, proposta que voltou a ser discutida na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara na semana passada. Além dos dois temas citados, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro também trabalha em propostas voltadas à revisão de benefícios concedidos a presos e ao fortalecimento da atuação policial.

Integrantes do PL avaliam que a pauta da segurança pública tem forte potencial de mobilização eleitoral. Durante participação na Marcha dos Prefeitos, realizada em Brasília na semana passada, Flávio elevou o tom ao defender uma política de maior repressão ao crime organizado.

“Marginais de CV [Comando Vermelho] e de PCC [Primeiro Comando da Capital], ouçam: metam o pé do Brasil até dezembro deste ano, porque, se não, a partir do ano que vem, vai todo mundo ser preso ou vai ser neutralizado pelas nossas polícias”, afirmou o senador, arrancando aplausos da plateia formada majoritariamente por prefeitos.

No mesmo evento, Flávio também defendeu a ampliação do acesso a armas de fogo para integrantes das guardas civis municipais. “O marginal infelizmente só respeita o que ele teme”, declarou.

Caiado e Zema tentam nacionalizar modelos estaduais de segurança

Também no campo da direita, as pré-candidaturas de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) intensificaram a exploração da pauta da segurança em seus discursos e planos de governo. Na Marcha dos Prefeitos, por exemplo, o ex-governador de Goiás criticou o programa federal de combate ao crime organizado lançado por Lula.

Segundo ele, o governo do PT tenta transferir aos estados a responsabilidade pelo combate ao crime organizado. “Como que uma pessoa diz que agora vai fazer um plano de segurança pública para estados e municípios tomarem emprestado dinheiro do BNDES para combater os crimes que são obrigação do governo federal?”, afirmou o pré-candidato do PSD.

Caiado também passou a defender a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, proposta que pretende implementar já no início de um eventual mandato presidencial. Segundo o ex-governador, a medida permitiria ampliar o uso das Forças Armadas e dos órgãos de inteligência no combate a grupos como Comando Vermelho e PCC.

A proposta encontra resistência dentro do governo Lula, sobretudo no Itamaraty, onde integrantes avaliam que esse tipo de enquadramento poderia gerar questionamentos diplomáticos e ampliar pressões internacionais sobre a política de segurança pública brasileira.

Romeu Zema, por sua vez, lançou recentemente um documento com as diretrizes da sua pré-campanha na área de segurança pública. Entre as propostas defendidas pelo ex-governador mineiro também está a classificação nacional e internacional de facções criminosas como organizações terroristas.

Segundo o documento, a medida permitiria ampliar o uso da Força Nacional, das Forças Armadas e de mecanismos de cooperação internacional no combate às organizações criminosas.

O plano apresentado por Zema também prevê endurecimento da legislação penal, redução da maioridade penal em casos de crimes graves ou reincidência e mudanças nas audiências de custódia.

Uma das propostas estabelece prisão obrigatória para criminosos detidos pela terceira vez, com conversão automática da prisão em flagrante em prisão preventiva.

O documento ainda propõe substituir o atual modelo progressivo de cumprimento de pena por um sistema considerado mais rígido pela pré-campanha, combinando restrição de liberdade e monitoramento posterior em liberdade condicional.

Especialistas questionam impacto imediato do pacote de Lula

Em meio ao avanço da oposição sobre a pauta da segurança pública, o presidente Lula lançou neste mês o programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, pacote que prevê R$ 11 bilhões em investimentos voltados ao combate às facções criminosas. Apesar da dimensão anunciada pelo governo, especialistas em segurança avaliam que as medidas tendem a produzir efeitos apenas a médio e longo prazo.

“No curto prazo, dificilmente haverá impacto perceptível para a população. O que se vê é muito mais uma tentativa de construção narrativa de combate ao crime do que uma solução efetiva para a insegurança cotidiana enfrentada pelos brasileiros”, afirma o advogado Arcênio Rodrigues, especialista em Direito Econômico e análise política.

Para Rodrigues, o programa lançado pelo governo tem forte componente político e dificilmente neutraliza o discurso da oposição sobre segurança pública. “O tema da segurança pública continua sendo um dos principais ativos políticos da oposição”, afirma.

Segundo ele, o pacote concentra esforços em estruturas macrocriminais e combate financeiro às facções, mas deixa em segundo plano justamente os crimes que mais impactam a percepção imediata de insegurança da população, como roubos, furtos e homicídios.

O delegado André Santos Pereira, presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (ADPESP), também avalia que a estratégia de asfixia financeira das facções tende a produzir resultados apenas no médio prazo. “Embora seja o golpe mais letal contra a sustentabilidade das facções, ela exige processos complexos de investigação, quebra de sigilo e judicialização”, afirma.

Para ele, o programa “deixa uma lacuna no que mais afeta o cidadão comum: os crimes patrimoniais violentos”. Embora o pacote tenha sido apresentado com previsão de R$ 11 bilhões, cerca de R$ 10 bilhões dependem de linhas de crédito do BNDES para estados e municípios.

“O anúncio de R$ 11 bilhões tem forte apelo publicitário, mas a realidade orçamentária é mais modesta: apenas R$ 1 bilhão é recurso direto. Se não houver adesão em massa ou se as condições de crédito forem desfavoráveis, a efetividade prática do programa pode ficar muito aquém do prometido”, completou o delegado.

 Gazeta do Povo

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