Candidatura de Aécio é ficção, mas pode virar realidade e dar trabalho

Aécio Neves é o tipo do herdeiro playboy que queima a largada da emancipação, sai de casa nas asas de promessas aventureiras de um bando de más-companhias, dá-se a farras com elas, converte-se em Rei da Malandragem, cai em todas as armadilhas do destino, destrói o patrimônio reputacional que recebeu da linhagem familiar e depois que a vida dá três voltas em torno do próprio eixo, volta ao ponto de partida como filho pródigo a fim de tentar construir um novo fim para a trajetória política que espicaçou.
Tancredo, avô dele, morto como presidente da República sem jamais ter tomado posse no cargo para o qual se elegeu, derrotando a ditadura militar com a arma urdida pelo regime de exceção — o Colégio Eleitoral de 25 de janeiro de 1985 — teria sentido vergonha de sabê-lo como neto caso tivesse sobrevivido para testemunhar a tresloucada trajetória do arrivista de Minas Gerais.
Agora, aos 66 anos e tendo de sobreviver ao atávico complexo de Peter Pan que o acompanha desde os tempos de surfista que colecionava drifts imaginários e paqueras abissais do Leme ao Pontal (com permanência mais detida no Arpoador, em Ipanema e no Leblon), Aécio Neves busca um renascimento na política a partir de uma segunda candidatura à Presidência da República.
O ponto de partida para o mais recente rally contra a irresponsabilidade nata que o neto de Tancredo tem para consigo é a reunião de alinhamento político da Federação partidária costurada por ele entre o seu PSDB, o Solidariedade do deputado paulista Paulinho da Força e o Cidadania, liderado com ecos de stalinismo pelo pernambucano Roberto Freire. É um ajuntamento de ruínas partidárias do que foi um sonho de social-democracia à brasileira com viés de centro-direita. Essa concertação do apocalipse reúne-se nesta terça-feira, 26 de maio, para tirar um alinhamento no sentido de sagrar candidato à Presidência da República o ex-governador mineiro, ex-presidente da Câmara, ex-senador e ex-marechal do golpismo de 2016 que impôs ao Brasil um impeachment sem crime de responsabilidade.
Aécio sonha ser regurgitado
Em Minas, estado pelo qual não quer renovar o mandato de deputado federal de jeito nenhum por se sentir laranja chupada na xepa do grande feirão que virou a Câmara, Aécio não consegue ir além dos 4% de intenções de voto para o governo ou para o Senado, mandatos majoritários. Ali, é só bagaço.
No Brasil, contudo, há uma fossa aberta da centro direita à extrema direita do espectro político na qual 40% dos eleitores brasileiros esperam ver emergir algum nome (sem o sobrenome Bolsonaro) capaz de chegar competitivo contra o presidente Lula num eventual 2º turno em outubro. É das profundezas dessa cloaca que Aécio Neves tem a esperança de ser regurgitado do esgoto em que se meteu depois de não aceitar a derrota para Dilma Rousseff, em 2014, para os píncaros da glória, agarrado na desesperança nacional.
O ex-senador que liderou o impeachment da adversária numa das mais longas noites do Congresso Nacional, entre 17 de abril e 31 de agosto de 2016, caiu em desgraça meses depois: delatado por ex-executivos da Odebrecht e do Grupo J&F/JBS, além do colega de Senado Delcídio do Amaral, Aécio Neves foi alvo de diversos pedidos de busca e apreensão em seus endereços residenciais, políticos e empresariais e só não foi cassado e preso porque os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados negociaram com o Supremo Tribunal Federal o descumprimento de pedidos de afastamento do mandato dele determinados pelo próprio STF. Todo o patrimônio político que havia amealhado surfando a onda do nome do avô foi levado em meio ao tsunami chamado “Lava Jato”.
Ruína da Lava Jato devolveu ânimo a Aécio
Depois que se tornou claro que a operação era um golpe planejado pela associação de parte do Poder Judiciário com facções da Polícia Federal e do Ministério Público a partir de uma célula instalada em Curitiba (PR), Aécio conseguiu estabilizar-se na cena mineira, respirou por aparelhos por alguns anos, elegeu-se deputado federal em 2018 e se reelegeu em 2022 porque precisava da prerrogativa de foro (responder diretamente ao Supremo por crimes cometidos) e se beneficiou da revelação das flagrantes ilegalidades cometidas pelos lavajatistas. O neto de Tancredo soube buscar nos escombros daquilo que poderia ter sido sua biografia (e seu epitáfio) na política o raio de sabedoria necessário a fazê-lo esperar a derradeira oportunidade para um renascimento.
A oportunidade está se oferecendo a ele na forma de um “Dark Horse” que passa veloz e sorrateiro à porta de seu gabinete em Brasília. Flávio Bolsonaro derreteu. Pré-candidato pelo PL à presidência, o filho 01 do clã trágico, chefiado com imposições silenciosas de máfia e constrições de milícia de PM do Rio pelo ex-presidente, ora em cumprimento de pena por golpe de Estado, equilibra-se na condição de presidenciável só enquanto ainda há ladeira para rolar até o sopé das depressões do Planalto Central.
Flávio Bolsonaro perdeu a confiança da bancada do próprio partido na Câmara, tem a solidariedade cúmplice dos senadores do PL, conta com um desastroso gestor de crise à frente de sua sigla, Valdemar da Costa Neto, que não esconde de ninguém a preferência por ver Michele, madrasta do senador fluminense, substituindo-o nos palanques e convocou para auxiliá-lo na operação de mídia dois publicitários que colecionam confusões no mercado: Eduardo Fischer e Alexandre Oltramari.
Mineiro se vê ungido pelo mercado
Michele Bolsonaro quer ser ungida para o lugar do enteado e trabalha para isso, mas conhece a família do marido apenado e teme ser vítima de bombas caseiras que exponham sua vida pregressa à política. Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, e Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, não empolgaram o eleitorado que existe dentro daquela abissal que Aécio quer perscrutar. T
anto um como o outro, assim como Michele e mesmo Renan Santos, pré-candidato do neopartido chamado Missão e herdeiro da estrutura bandoleira do MBL, chegam próximos dos 40% de intenções de voto em hipotéticos segundos turnos aventados em pesquisas de intenção de voto. Ou seja, são todos iguais e estão todos atados à mesma pedra que os fará afundar na cena eleitoral até outubro.
“Por que não eu?”, pensa Aécio Neves, que se fia num provável recall nacional de seu nome no espectro da centro-direita à direita, vê-se decolando para algo na faixa dos 10% a 12% de intenções de votos até o fim de julho e com o mesmo patamar do futuro ex-candidato do PL nos ensaios de segundo turno. O ex-governador mineiro, ex-senador e ex-marechal do golpe de 2016 contra Dilma tem certeza de que, no agregado de três pesquisas pré-eleitorais, atinge o patamar de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto no segundo turno. Isso será suficiente, crê, para alçá-lo à preferência especulativa do mercado financeiro e dos capitães-do-mato do empresariado nacional. A candidatura de Aécio é uma ficção no momento. Contudo, se os sonhos dele estiverem em conexão com o cansaço e o desalento nacionais, podem virar realidade e dar algum trabalho para Lula, o incumbente nesta eleição.
Luis Costa Pinto


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