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Por Donato Heinen. Publicado em 03/06/2026 as 21:09:58

O Comando Vermelho avança sobre o Nordeste e o governo finge que o problema é outro

Facções armadas tomam cidades do Nordeste com fuzis e terror enquanto o governo federal se ocupa com discursos vazios sobre soberania nacional


Enquanto facções armadas tomam cidades e aterrorizam cidadãos, Brasília segue ocupada com discursos vazios sobre soberania

Homens encapuzados. Fuzis em punho. Pichações de facção nos muros. Madrugada de terror em Assú, no Rio Grande do Norte. Não estamos falando de Cabul, de Mogadíscio ou de algum território em guerra civil declarada. Estamos falando do interior do Nordeste brasileiro, onde o Comando Vermelho exibe seu poderio bélico pelas ruas como quem desfila numa avenida.

E o Estado? O Estado assiste.

A cena se repete com variações cosméticas em dezenas de municípios nordestinos. Grupos criminosos fortemente armados circulam livremente, impõem toques de recolher, ditam regras de convivência e desafiam abertamente qualquer vestígio de autoridade pública. A população, encurralada entre o fuzil do traficante e a ausência do policial, faz o que pode: tranca a porta e reza.

Mas há um detalhe que deveria incomodar qualquer pessoa minimamente comprometida com a realidade.

Enquanto facções criminosas exercem controle territorial sobre cidades inteiras — com armamento que envergonharia muitas forças policiais estaduais —, o governo federal segue entretido com seu discurso favorito: soberania nacional. Soberania contra quem, exatamente? Contra os Estados Unidos e suas tarifas? Contra a comunidade internacional que ousa questionar decisões judiciais brasileiras?

A soberania que importa — aquela que garante ao cidadão o direito de sair de casa sem medo de ser alvejado por um fuzil de guerra — essa ninguém em Brasília parece disposto a exercer.

A farsa jurídica que protege o crime

Do ponto de vista legal, o Brasil insiste em tratar facções como o Comando Vermelho como meras organizações criminosas voltadas ao lucro. A Lei Antiterrorismo, na sua redação cuidadosamente blindada, exige motivação política, ideológica ou religiosa para enquadrar um grupo como terrorista.

Conveniente, não?

Pergunte ao morador de Assú se o que ele sentiu naquela madrugada foi medo de uma “organização voltada ao lucro” ou puro terror. Pergunte se a distinção entre terrorismo e crime organizado faz alguma diferença quando há um fuzil apontado para sua janela.

A verdade é que a classificação jurídica virou escudo para a inação. Enquanto países sérios tratam organizações que exercem controle territorial armado como ameaças à segurança nacional, o Brasil se esconde atrás de categorias legais que já não descrevem a realidade.

O Estado que não existe onde deveria

O fenômeno é antigo, mas a escala é nova. O crime organizado não está mais confinado às periferias das grandes capitais. Ele se espalhou para o interior, para cidades pequenas, para lugares onde a presença do Estado já era raquítica e agora é praticamente inexistente.

Em certas áreas do Nordeste, quem manda não é o prefeito, não é o delegado, não é o juiz da comarca. Quem manda é o chefe da boca. Ele decide quem entra, quem sai, quem vive e quem morre. E o faz com fuzis que o próprio Estado não consegue — ou não quer — rastrear.

Agora compare: o governo federal mobiliza aparato institucional, diplomático e midiático para reagir a tarifas comerciais americanas. Fala em soberania, em dignidade nacional, em não aceitar imposições externas. Mas quando uma facção criminosa toma uma cidade brasileira à força das armas, o silêncio é ensurdecedor.

Não é coincidência. É escolha.

A pergunta que ninguém faz

Se o Estado brasileiro não consegue garantir o monopólio da força no próprio território — se permite que organizações criminosas armadas controlem cidades, imponham leis paralelas e aterrorizem populações inteiras —, de que soberania estamos falando?

Soberania é, antes de tudo, controle do próprio território. É a capacidade de o Estado fazer valer suas leis dentro de suas fronteiras. Quando um grupo armado desfila com fuzis por uma cidade nordestina e nada acontece, a soberania já foi violada. Não por uma potência estrangeira. Pelo crime organizado brasileiro, operando à luz do dia.

O cidadão de Assú não precisa de discursos sobre dignidade nacional. Precisa de um Estado que funcione. Que apareça. Que exista onde ele vive — e não apenas nos palanques de Brasília.

Mas talvez seja pedir demais de um governo que confunde soberania com retórica e segurança pública com problema dos outros.

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