Vídeo de Michelle expõe crise de poder no bolsonarismo e disputa pela herança política de Jair

Ao tecer críticas abertas ao enteado Flávio Bolsonaro, expor divergências internas no Partido Liberal (PL) e declarar que o ex-presidente Jair Bolsonaro tem conhecimento dos ataques que vem sofrendo, o vídeo de quase meia hora de Michelle Bolsonaro acendeu o debate sobre a saúde do bolsonarismo como grupo político
A cientista política Priscila Lapa caracterizou a iniciativa de Michelle como pensada. "Não vejo como um desabafo espontâneo, mas um desabafo estruturado, estrategicamente pensado para ocupar determinados espaços dentro de um núcleo político e próximo a um segmento do eleitorado em que Flávio Bolsonaro encontra maior resistência: as mulheres."
O cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Elton Gomes, vai na mesma direção. Para ele, "foi um movimento calculado", com dois objetivos concretos: expor a insatisfação de Michelle com a aliança do PL no Ceará com Ciro Gomes - alguém que ela classifica publicamente como inimigo - e reagir à perda de espaço para indicar candidatas mulheres ao Legislativo, uma das suas principais funções como dirigente do PL Mulher
"Uma discussão que deveria ser resolvida internamente acabou se publicizando, trazendo desgaste para a candidatura do senador Flávio Bolsonaro em um momento em que ele começava a se recuperar de outros desgastes”, avalia Gomes.
O professor e colunista da Folha de Pernambuco, Luiz Otávio, interpreta o gesto a partir de uma característica estrutural do bolsonarismo. Para ele, o grupo político tem um perfil intrinsecamente machista. "Eles não admitem a participação ativa das mulheres no processo político."
"É uma briga de vida ou morte", afirma o professor e colunista da Folha de Pernambuco, Luiz Otávio. "A segunda geração da oligarquia está avistando o seu túmulo." O raciocínio, segundo o especialista, é simples: Flávio Bolsonaro tem grandes chances de perder as eleições para presidência; Eduardo Bolsonaro, que está no exterior, também ficará sem mandato.
O cenário que se desenha, para Luiz Otávio, é o de uma sucessão em curso. "Está se criando o grupo sucessor da oligarquia Bolsonaro, formado por Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e por Michelle Bolsonaro no Distrito Federal." Para ele, a configuração atual tende a se desfazer rapidamente diante desse rearranjo de forças.
Já Elton lembra que "esses são movimentos políticos que ainda estão acontecendo" e que envolvem o que a ciência política chama de “nested games” - jogos de poder simultâneos em vários tabuleiros, com motivações que nem sempre são transparentes, inclusive para os próprios atores
Priscila também concorda que o conflito "extravasa o núcleo familiar e se torna palco de disputa política", e que "a falta de coesão vai permanecer, por mais que se coloquem agora os panos mornos". O vídeo de desculpas publicado por Flávio Bolsonaro logo após o episódio, avalia ele, "pode sinalizar o receio de que estragos maiores ainda sejam feitos com a demonstração pública das insatisfações"
Por Maysa Sena


.png)






.jpg)
 2-1-26.png)
.png)