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Por Donato Heinen. Publicado em 10/07/2026 as 22:02:55

Férias de inverno desafiam famílias a equilibrar tempo de tela e experiências fora do mundo digital

Educadora orienta sobre como aproveitar o recesso escolar para fortalecer vínculos e estimular a criatividade



Depois de um semestre marcado por aprendizados, desafios e uma rotina intensa, as férias escolares costumam significar mais tempo livre para as crianças, o que muitas vezes se traduz em um aumento no tempo dedicado às telas. Celulares, tablets, videogames e televisão passam a ocupar parte da rotina durante o recesso, muitas vezes acima do recomendado por especialistas. 

Um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, realizado em parceria com o Datafolha no ano passado, mostra o quanto as telas já fazem parte da infância. A pesquisa Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida aponta que 78% das crianças de 0 a 3 anos utilizam esses dispositivos diariamente. Entre as de 4 a 6 anos, esse percentual chega a 94%.

O cenário contrasta com as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que orienta que crianças de até 2 anos não tenham contato com telas. Entre 2 e 5 anos, o tempo deve ser limitado a até uma hora diária e, dos 6 aos 10 anos, a no máximo duas horas por dia.

Para a coordenadora do Ensino Fundamental I do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, Tatiane Ayala, as férias representam uma oportunidade para as famílias repensarem hábitos e encontrarem um equilíbrio saudável entre o uso da tecnologia e momentos de convivência. 

"O universo digital faz parte da vida das crianças e oferece possibilidades importantes de entretenimento e aprendizagem. O desafio não é eliminá-lo da rotina, mas garantir que ocupe um espaço equilibrado, sem substituir experiências que fortalecem vínculos e favorecem o desenvolvimento infantil", afirma.

Segundo a educadora, experiências simples do cotidiano são capazes de proporcionar aprendizagens tão significativas quanto atividades estruturadas. Brincar ao ar livre, preparar uma receita em família, montar um quebra-cabeça, desenhar, ler um livro, visitar um museu, caminhar em um parque ou conversar com pessoas próximas estimulam criatividade, imaginação, autonomia, linguagem e habilidades de convivência.

Tatiane ressalta que nem sempre é preciso viajar ou investir em passeios para que o período seja marcante. "Muitas das lembranças afetivas da infância nascem dentro de casa. Uma tarde de jogos, uma cabana feita com lençóis, um chocolate quente em um dia frio ou uma visita aos avós costumam permanecer na memória por muitos anos. O que faz diferença é a qualidade da presença dos adultos."

Para crianças entre 6 e 11 anos, essa convivência é importante para o amadurecimento emocional. De acordo com a coordenadora, alguns minutos de atenção exclusiva, com escuta, brincadeira e interação verdadeira, podem ser mais significativos do que horas compartilhando o mesmo ambiente enquanto cada um permanece concentrado na própria tela.

Outro aspecto valorizado pela especialista é permitir que exista espaço para o chamado "ócio criativo". "Nem todo momento precisa ser planejado. Quando experimentam um pouco de tédio, as crianças inventam brincadeiras, criam histórias, exploram materiais e descobrem interesses que dificilmente apareceriam em uma rotina completamente preenchida."

O recesso também pode ser um bom momento para estabelecer novos combinados sobre o uso da tecnologia. Definir horários para celulares, videogames e televisão, alternando atividades online e offline e envolvendo as crianças nessas decisões, contribui para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade. "Mais do que controlar, trata-se de educar para o equilíbrio", destaca Tatiane.

As férias também fazem parte de um processo educativo, ao favorecer momentos de descanso, contemplação, convivência e cuidado consigo, com a família e com a natureza. "Provavelmente as crianças não vão se lembrar de todos os vídeos que assistiram durante o recesso, mas dificilmente esquecerão a caminhada em uma manhã fria, o bolo preparado em família ou a brincadeira inventada na sala de casa. São essas experiências que fortalecem vínculos e constroem memórias afetivas para toda a vida", conclui Tatiane.


Crédito das imagens: Kaylane de Oliveira 


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