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Por Grande Santa Rosa Notícias. Publicado em 27/07/2026 as 00:23:14

O futuro da indústria automóvel não se decide apenas nas fábricas

No século XX, quem controlava a produção dominava o mercado. No século XXI, quem controlar os dados, o software e o acesso ao veículo controlará a mobilidade.


Quando se discute o futuro da indústria automóvel europeia, o debate centra-se quase sempre nas fábricas, nas baterias, na eletrificação, na descarbonização ou na crescente concorrência chinesa. Todos estes temas são decisivos. Mas existe uma componente essencial deste ecossistema que continua frequentemente subvalorizada nas prioridades políticas europeias: o aftermarket automóvel.

É precisamente por isso que assume particular relevância a criação da Automotive Coalition for Europe e da iniciativa #WeDriveEU, uma plataforma que reúne associações representativas de toda a cadeia de valor do setor automóvel europeu para promover, junto das instituições europeias, políticas que reforcem a competitividade, a concorrência e a inovação em todo o ecossistema automóvel. A mensagem é clara: o futuro da indústria automóvel europeia decidir-se-á tanto nas fábricas como nas oficinas.

E estamos longe de falar de um setor marginal. O aftermarket europeu representa cerca de 900 mil empresas e mais de 3,2 milhões de empregos, maioritariamente em pequenas e médias empresas independentes que asseguram diariamente a manutenção, reparação, distribuição de peças e inúmeros serviços especializados. Trata-se de um dos maiores empregadores da economia europeia e de um verdadeiro pilar da sua competitividade.

Mas existe uma questão que continua praticamente ausente do debate político: quem controlará a mobilidade do futuro?

O automóvel deixou de ser apenas um produto industrial para se transformar numa plataforma tecnológica, cada vez mais dependente de software, conectividade e dados. A competição já não se trava apenas na produção dos veículos. Trava-se igualmente no acesso ao software, aos dados gerados pelos veículos, à reparação e à relação com o cliente durante todo o ciclo de vida do automóvel.

No século XX, quem controlava a produção dominava o mercado. No século XXI, quem controlar os dados, o software e o acesso ao veículo controlará a mobilidade.

É neste contexto que o Right to Repair assume uma importância estratégica. Garantir que oficinas independentes dispõem de acesso às informações técnicas, aos dados e às ferramentas necessárias para reparar veículos modernos deixou de ser apenas uma questão de concorrência. É uma condição para preservar a liberdade de escolha dos consumidores, estimular a inovação, evitar posições dominantes e assegurar que milhares de pequenas e médias empresas continuam a competir em igualdade de oportunidades.

A frase escolhida pela Automotive Coalition for Europe — “There is no competitiveness without competition” — sintetiza este desafio. Sem concorrência efetiva no mercado do pós-venda haverá menos inovação, menos investimento, maiores custos para consumidores e empresas e uma crescente concentração económica.

Existe ainda uma evidente contradição. Enquanto a União Europeia promove a economia circular, continua muitas vezes a esquecer que reparar, reutilizar componentes e prolongar a vida útil dos veículos também são políticas ambientais, industriais e de competitividade.

Em Portugal, onde o setor automóvel assenta maioritariamente numa rede de pequenas e médias empresas independentes, esta discussão assume uma importância acrescida. Defender um aftermarket forte, competitivo e tecnologicamente capacitado significa proteger emprego qualificado, reforçar a competitividade da economia e garantir uma mobilidade mais acessível.

O futuro da indústria automóvel europeia não se decidirá apenas nas fábricas. Decidir-se-á igualmente nas oficinas, nos centros de assistência, nas empresas de distribuição de peças e em todos aqueles que garantem que a mobilidade continua a funcionar todos os dias. Porque uma indústria automóvel verdadeiramente competitiva não termina quando um veículo sai da linha de produção. É aí que começa uma parte essencial da sua vida. 

Roberto Gaspar

 


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