Crise nos rios da Europa já é visível do Espaço. Há centrais nucleares em risco e navios encalhados

Francisco Laranjeira
A vaga de calor e a seca que atingem grande parte da Europa estão a provocar uma crise sem precedentes nos principais rios do continente. Os níveis da água caíram para mínimos históricos em vários locais, numa situação tão grave que já pode ser observada a partir do Espaço.
Imagens de satélite divulgadas pela Agência Espacial Europeia mostram o contraste entre 2023 e 2026: rios como o Danúbio e o Reno surgem agora muito mais estreitos, rodeados por margens secas e extensos bancos de areia que normalmente permanecem submersos.
Os cientistas lembram que a Europa é o continente que aquece mais rapidamente no planeta e alertam que as ondas de calor sucessivas e a falta persistente de chuva estão a transformar um fenómeno sazonal numa nova realidade climática.
As consequências já se fazem sentir muito para além da paisagem. Os grandes rios europeus são essenciais para o transporte de mercadorias, a produção de energia, o arrefecimento de centrais nucleares, o turismo e a sobrevivência de inúmeros ecossistemas.
Danúbio atinge mínimos históricos e provoca crise energética
O Danúbio, o segundo maior rio da Europa, registou níveis de água nunca antes observados em Budapeste. Na capital húngara, a altura da água desceu para apenas cerca de 10 centímetros, destruindo o anterior recorde estabelecido em 2018.
A situação já obrigou a reduzir drasticamente a produção da central nuclear de Paks, responsável por quase metade da eletricidade consumida na Hungria.
A central utiliza água do Danúbio para arrefecer os reatores e está atualmente a funcionar com apenas cerca de 10% da capacidade. Se o caudal continuar a diminuir, existe o risco de uma paragem total.
Também a Roménia enfrenta dificuldades. As autoridades recorreram a explosivos para remover rochas e desviar mais água do Danúbio para a central nuclear de Cernavodă, enquanto estudam a construção de um dique temporário para garantir o funcionamento do único reator atualmente em operação.
Reno obriga navios a navegar quase vazios
O Reno atravessa algumas das regiões industriais mais importantes da Europa e constitui uma das principais vias de transporte de matérias-primas, combustíveis e produtos alimentares.
Mas também aqui a situação é crítica. No estreitamento de Kaub, na Alemanha, o nível da água desceu para cerca de 23 centímetros, ultrapassando o anterior mínimo histórico registado em 2018.
Para evitar encalhes, muitas embarcações comerciais foram obrigadas a reduzir a carga até 80%, aumentando significativamente os custos do transporte e afetando as cadeias de abastecimento.
Empresas industriais já começaram a transferir parte das mercadorias para o transporte ferroviário e rodoviário, numa tentativa de minimizar os impactos da navegação limitada.
Cruzeiros cancelados e relíquias escondidas voltam à superfície
Os efeitos da seca estendem-se também ao turismo.
Nos últimos dias, um navio de cruzeiro encalhou num banco de areia no Danúbio, na Bulgária, obrigando a alterar itinerários.
Ao mesmo tempo, o recuo das águas revelou vestígios históricos que permaneciam escondidos há décadas ou séculos.
Na Bulgária foram encontrados os restos do que poderá ser um mamute pré-histórico. Na Sérvia voltou a emergir um navio de guerra alemão afundado durante a II Guerra Mundial, uma das várias embarcações que permaneciam submersas no leito do Danúbio.
Outros rios também estão em mínimos
A situação não se limita ao Danúbio e ao Reno.
O Pó, em Itália, e o Loire, em França, apresentam igualmente níveis excecionalmente baixos em vários troços, refletindo uma tendência que se repete em grande parte da Europa Central e Ocidental.
Segundo os especialistas, a conjugação de um inverno com pouca neve nos Alpes, da escassez de precipitação e de sucessivas ondas de calor explica o agravamento da situação.
“É apenas a ponta do icebergue”
Para Richard Allan, climatólogo da Universidade de Reading, os recordes observados este verão dificilmente serão excecionais.
“À medida que o clima continua a aquecer, os extremos hidrológicos que estamos a viver serão apenas a ponta do icebergue”, alertou.
O investigador defende que a única forma de reduzir estes fenómenos passa por diminuir rapidamente as emissões de gases com efeito de estufa e apostar em políticas de adaptação de longo prazo.
Enquanto isso não acontece, as imagens captadas do Espaço mostram uma realidade difícil de ignorar: alguns dos rios mais importantes da Europa estão a encolher a um ritmo sem precedentes, colocando sob pressão a energia, os transportes, a economia e os recursos hídricos de milhões de europeus.


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